A Date in Minsk: A Vida Privada como um Ato Político

5 estrelas Críticas Doclisboa
Num salão de bilhar escuro, dois jovens têm um date de Tinder. Tendo conversas mundanas sobre os seus interesses e episódios com ex-relações, tudo nisto parece algo banal, algo estranho para se registar num filme. O contexto e a premissa de “A Date in Minsk“, no entanto, tornam este filme e o seu conteúdo tudo menos algo banal. Tendo lugar no epicentro de um regime autoritário, que passa por um momento político conturbado, este filme revela a vida de dois jovens que vivem e sobrevivem neste ambiente. Depois de uma relação tóxica que dura há 8 anos, Nikita Lavretski, o realizador deste filme, e a sua namorada Volha Kavaliova (que estrelou nos filmes anteriores de Lavretski), decidem fazer um reboot à sua relação, criando um primeiro date de Tinder em que fingem que se conhecem pela primeira vez. A partir da mistura entre uma ficção rom-com (que às vezes faz lembrar os filmes da trilogia Before) e um estilo documental, apenas com um iPhone e dois microfones, a realidade de um país é revelada de uma forma inesperada.
Não existe um enredo, e tudo é feito à base de improviso, desde o longo diálogo entre os dois protagonistas – este filme, na verdade, consiste apenas num longo diálogo – ao movimento da câmara que segue os protagonistas, num primeiro momento num salão de bilhar e num segundo momento pelas ruas de Minsk. Apesar de assentar numa ficção de um primeiro encontro romântico, tudo o que é registado é produto do momento e, portanto, é o registo de algo genuinamente verdadeiro. Filmado num único plano contínuo, observamos a vida privada destas duas pessoas sem filtros e, através da conversa mundana, é nos revelada a realidade dos jovens (e não só) na Bielorrússia.
O fascinante em A Date in Minsk é o exercício que faz em transformar algo banal em algo intrinsecamente político. O registo de um date em Minsk torna-se numa forma de dar voz a uma geração que vive com medo de manifestar a sua voz. Através deste diálogo, sentimos o receio que estes dois personagens sentem e as diferentes formas que têm em lidar com isso. Um rom-com que noutro contexto seria apenas um romance banal torna-se num grito de protesto. A vida privada e a sua documentação tornam-se um ato político.
Lavretski alcança isto através de um estilo minimalista, quase artesanal, em que não existe quase orçamento, libertando-se assim das imposições do capital e do estado. A Date in Minsk é feito com um mínimo de material e preparação do que iria acontecer no filme, e isso torna-o num filme totalmente liberto, podendo registar a realidade sem filtros. Desta forma A Date in Minsk torna-se num retrato de dois jovens bielorussos e não só. Torna-se num retrato de uma cidade e de uma geração, e torna-se num ato político com uma coragem rara que nos fascina e puxa para si do princípio ao fim apesar das suas limitações técnicas (ou talvez, graças a estas). A Date in Minsk é um daqueles filmes raros que nos tomam completamente de surpresa pela forma simples que inovam no que o cinema nos pode trazer e mostrar.
O filme foi galardoado com o Grande Prémio Cidade de Lisboa para Melhor Filme da Competição Internacional, na edição deste ano do Doclisboa, e será exibido hoje (dia 19 de Outubro) no Cinema Ideal a partir das 22 horas.
Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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