Crítica: Duas Vezes João Liberada. Cinco estrelas por Jasmim Bettencourt.

Duas Vezes João Liberada – Um Questionamento Trans Sobre o Olhar do Cinema

5 estrelas Cinema Português Críticas IndieLisboa

Como olhar para o nosso passado através do cinema? Quais são as consequências deste olhar, tanto para nós como para quem é retratado? Como representar a experiência daqueles que são marginalizados pela sociedade? Porque é que o cinema se foca na violência e não na agência? Neste meta-comentário que se apresenta com uma estrutura documental, mas que mistura misticismo e surrealismo, Paula Tomás Marques e June João apresentam uma proposta de reflexão profundamente política e deliciosamente queer sobre o papel do cinema e a sua natureza. Questionando a dominância de um certo olhar masculino na forma como as histórias são contadas no cinema, as estruturas tradicionais do cinema são subvertidas num filme que nos faz questionar as fronteiras ténues entre documentário e ficção, convidando-nos numa viagem hipnótica que nos comove e inquieta.

Através da história da rodagem de um filme sobre uma personagem trans histórica perseguida pela Inquisição, acompanhamos os questionamentos da atriz principal, que é a própria June João, que tenta dar vida a esta pessoa. Questionando a sua identificação com esta personagem e questionando o foco do filme na violência que esta sofre, esta atriz entra em conflito com o realizador. Através deste conflito, o espectador é convidado e até provocado a acompanhar este questionamento. Para além disso, este conflito manifesta-se na própria materialidade do filme, que é filmado com filme 16mm e as suas imperfeições e a forma como este é manipulado e editado (de forma magistral por Jorge Jácome) dão uma nova vida a estas imagens, fazendo com que o próprio filme esteja assombrado por esta João Liberada e todas as pessoas trans e queer da história, esquecidas e violentadas, cuja vontade e agência é ignorada tanto pelo historiador como o artista patriarcais.

Com esta irreverência trans, Paula Tomás Marques e June João constroem uma proposta de cinema que questiona os seus próprios alicerces. Como Adèle Haenel disse em 2022, a indústria cinematográfica é intrinsecamente reacionária, racista e patriarcal (e é curioso notar como esta produção não obteve financiamento do ICA, mesmo tendo concorrido para este). Mesmo quando se foca numa representação de indivíduos oprimidos nesta sociedade, o seu foco, tendencialmente, é esta opressão violenta, reproduzindo-a ciclicamente. Em Duas Vezes João Liberada, é feita uma subversão e uma tentativa de quebra desta estrutura reacionária que constringe o cinema, libertando-se a imagem e estes espíritos trans do passado, permitindo um novo olhar sobre este passado e sobre nós próprias.

Duas Vezes João Liberada é um filme que nos deixa entusiasmadas por novas possibilidades que são permitidas nesta forma de arte que tanto tem tendência a cristalizar como tem tendência a subverter-se e renovar-se. É nos proposto um novo olhar auto-reflexivo, uma nova forma de produzir imagens e de pensar nestas imagens. É construído um comentário acutilante sobre a forma como o cinema é produzido em Portugal (e não só). Com inúmeras camadas que nos convidam a reflexão e que não são possíveis de tratar numa única crítica, este é dos filmes mais significantes e mais refrescantes este ano, e grita com uma voz poderosamente e subversivamente trans.

Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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