Imagem/still do filme 'Hugo'

A Essência do Cinema Capturada num dos Filmes Mais Discretos de Scorsese

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Martin Scorsese é conhecido não só como um dos melhores realizadores de todos os tempos, mas também como um dos mais versáteis. A sua variedade e alcance são inegáveis e, a meu ver, Hugo é o expoente máximo — ou, se preferirem, o pináculo — desta habilidade. Numa autêntica carta de amor à sétima arte, Scorsese apresenta o cinema como escapismo, onde os sonhos se realizam e, de facto, os finais felizes acontecem. Sendo agora menos poético e mais objetivo, o que realmente me fascinou neste projeto foi uma simples cena em que duas crianças estão no cinema, assim como o otimismo invulgar de Scorsese, mesmo tendo em conta a sua flexibilidade.

Hugo conta a história de um rapaz órfão que vive e trabalha secretamente na torre do relógio da estação de comboios de Paris. Este tem como único propósito terminar o último projeto do seu falecido pai; para isso, vê-se obrigado a roubar peças da loja de um homem (um dos pioneiros do cinema, Georges Méliès, agora mergulhado em desgosto), à primeira vista severo e rabugento. É quando conhece a neta do dono da loja que a sua vida muda radicalmente… A cena a que me refiro na introdução é, na verdade, bastante simples. Hugo e Isabelle (neta do dono da loja) entram às escondidas num cinema, e a câmara limita-se a alternar entre o filme que estão a assistir e as reações maravilhadas dos protagonistas. À partida, nada de mais. Contudo, creio que, pelo menos para mim, captura na perfeição a essência do cinema. A beleza e a virtude do cinema não estão na qualidade técnica ou nos efeitos, mas sim na forma como nos faz sentir e reagir. Ainda que reconheça a enorme importância do trabalho técnico, não é esse que me semeia a ideia de partilhar a minha opinião sobre um filme. Gosto particularmente de uma frase de Roger Ebert (um célebre crítico de cinema): o trabalho de um crítico não é dizer se o filme é bom ou mau, mas sim explicar o que ele faz connosco. Até porque, se nos ficássemos apenas pela qualidade técnica, a classificação dos filmes seria, sem dúvida, mais objetiva e, consequentemente, as preferências menos variadas. Existem filmes brilhantemente executados que não funcionam para certas pessoas, à semelhança de filmes não tão bem conseguidos que significam muito para outros.

Em relação à mensagem invulgar de Scorsese, Hugo é um tipo de filme em que todas as personagens, eventualmente, sucumbem ao bom senso e ao apelo da consciência; nada de grave — afinal, é um filme infantil. Todavia, tendo em conta a forma nua e crua com que o realizador encara a realidade na sua obra, isto é, no mínimo, uma surpresa. É curioso, pois a mensagem deste filme contrasta diretamente com a de um dos filmes mais icónicos do realizador, Taxi Driver. Numa entrevista, Scorsese explica uma das cenas mais trágicas do clássico: enquanto o protagonista recebe uma chamada telefónica devastadora, a câmara desvia-se, pois ninguém merece ou deve experienciar aquela dor. A câmara move-se para um corredor que conduz a uma porta aberta, dando a ideia de que alguém pode aparecer — mas não, ninguém vem. O protagonista está sozinho neste mundo; no fundo, é como se não pertencesse. Ora, em Hugo é precisamente o contrário. É como se Scorsese tivesse atingido aquilo a que se pode chamar um full circle na sua carreira. Numa cena emocional, em que Isabelle está incerta quanto à sua vocação e ao seu lugar ou propósito no mundo, Hugo faz uma comparação perspicaz: à semelhança de uma máquina, o mundo não tem peças sobressalentes, pelo que qualquer peça, ou pessoa, tem uma função única e importante. Todos pertencem.

Apesar dos prémios e das nomeações, Hugo permanece, até hoje, como um dos filmes mais despercebidos de Martin Scorsese, o que não significa que não valha a pena. Longe da violência física e moral que tantas vezes marca a sua filmografia, Scorsese oferece uma obra profundamente apaixonada e pessoal. No fundo, o filme deixa-nos uma ideia simples: o mais importante em qualquer projeto é a paixão que o autor deposita nele — como Hugo no projeto do pai, ou Méliès nos seus filmes. Termino com uma frase do próprio Scorsese, que creio encaixar-se na perfeição com a mensagem: “The most personal is the most creative.”

Texto escrito por Francisco Empis.

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