Béla Tarr

Sobre a morte de Béla Tarr

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Faz hoje um mês que morreu o cineasta Húngaro Béla Tarr. Tenho aproveitado as últimas semanas de chuva para revisitar a sua obra e isso, inevitavelmente, tem-me levado a pensar na rebeldia do seu formalismo. Não é de admirar a incapacidade do público (naturalmente que aí me incluo) de perceber os seus filmes e na profunda rotura com o tradicional que foi o seu virtuosismo, especialmente no que à passagem do tempo se deve.

A ideia de tempo – rápido, lento, frenético, monótono – confere a qualquer forma de arte uma subtil apreciação da sua qualidade, por vezes exterior à obra em si.

Diferentes correntes, ou criadores individuais, atribuem diferentes méritos à passagem do tempo. Para uns o estilo rápido, de constante suspense e quase transe, representa uma forma única de contar uma história que tem no seu método uma mais-valia que começa e acaba em si própria.

Temos um exemplo bastante revelador disso no cinema atual: os filmes dos irmãos Safdie. Quando começam parecem cortar a respiração do expectador ao atrair um clima de claustrofobia que só termina com o fim do filme. Deixam a meditação sobre o que acabamos de ver para depois, quando voltamos a ganhar terreno sobre a consciência do que se passou. São escolhas.

Como o normal no cinema é exatamente que o tempo seja moldado para mais facilmente contar uma história sentimos um desconforto na passagem lenta do tempo no grande ecrã. Mesmo que essa passagem de tempo seja mais próxima da realidade do que o truque que a sétima arte nos consegue oferecer.

Não sei se houve alguém que melhor percebesse isto na história do cinema do que Béla Tarr. O realizador húngaro ascende à popularidade mundial na década de 90 ao realizar “Sátántangó” (1994), famoso pelos seus demorados 439 minutos (nas versões mais “curtas”) de planos longos e uma beleza incalculável. A questão que levava ao seu público era reacionária, não pelo tema (embora também, nos seus filmes, esteja contida toda a luta da Hungria moderna) mas pela sua forma, que seria sempre considerada lenta quer os filmes tivessem mais de 7 horas, ou apenas alguns minutos. Tarr estava em busca de um ideal, de uma forma de filmar que levasse o espectador em busca das personagens e não do contrário. E é exatamente por isso que o seu cinema dá trabalho. Os silêncios, o preto e branco, as paisagens, os longos planos, os cenários dantescos ou as narrativas curtas – mas de poética inexplicável (não fossem alguns dos seus mais famosos filmes adaptações do seu conterrâneo e recentemente prémio nobel László Krasznahorkai) – desafiam o espectador a investir tudo o que tem para dali sair recompensado. Na sua obra está contida a decadência humana, as dificuldades das classes mais marginalizadas e a falta de sentido das que tudo têm, causando uma tensão e estranheza na vida em sociedade. É uma espécie de realismo existencialista onde quem sobrevive são os espectadores, saindo das suas criações com um enorme respeito pelo conceito desapropriado de lentidão. Lentidão essa que nada mais é do que a maior forma de respeito e cuidado com o que está a ser criado.

Texto escrito por Francisco Gomes.

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