Still do filme "Guerrilha no Asfalto" de Edgar Pêra

“Guerrilha no Asfalto” de Edgar Pêra abre o Doclisboa

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O Doclisboa regressa de 15 a 25 de outubro e abre a sua 24ª edição com Guerrilha no Asfalto, do realizador português Edgar Pêra. Partindo do livro homónimo de Manuel Ricardo Sousa, Pêra cruza os relatos de um antigo operacional das FP-25 com as suas próprias memórias dos turbulentos anos 1980. Entre arquivos, ficção e inteligência artificial, constrói um filme autobiográfico e inquieto sobre a possibilidade de continuar a revolução por outros meios: fazer cinema sem cedências. “Baseado em factos surreais”.

Antecipando o anúncio da Competição Portuguesa no próximo dia 21, revelamos ainda novos títulos das secções Da Terra à Lua e Heart Beat, num conjunto de filmes de produção portuguesa assinados por cineastas de diferentes gerações, onde a memória individual e colectiva se cruza com a música, a literatura, o filosofia, a história e o próprio cinema. Em Da Terra à Lua, a história política e a dimensão íntima encontram-se em Amílcar, de Miguel Eek, co-produção entre Espanha, Portugal, França, Suécia e Cabo Verde. O ensaio documental poético aproxima-nos de Amílcar Cabral através dos seus escritos políticos, poemas e cartas privadas, cruzando arquivos inéditos, filmes coloniais portugueses e imagens revolucionárias da Guiné com novas imagens em 16mm. Entre o líder revolucionário e o homem em solidão, emerge um retrato pessoal de uma das figuras fundamentais da luta anticolonial africana.

A memória assume outra dimensão em Casa do Artista — Não é Permitido Envelhecer, de Solveig Nordlund. Entre pianos, canções e recordações de outros tempos, o filme acompanha um quotidiano onde o envelhecimento convive com as artes que marcaram a vida dos seus residentes.

A capital do país e as marcas deixadas por quem a habita estão no centro de O Nosso Último Filme sobre Lisboa, do colectivo Left Hand Rotation. Perante a hipótese de um dia a água engolir a cidade, o filme pergunta o que restará das lutas partilhadas nas suas ruas e encontra nos afectos, na vitalidade de quem está e imagina em conjunto a possibilidade de uma outra cidade.

Também em Da Terra à Lua, a co-produção luso-brasileira Nosso Segredo, de Grace Passô, aproxima-se de uma família atravessada pelo luto e de um segredo que a obriga a reencontrar-se. Em VestígiosLuís Mendonça cruza fotografias realizadas por sete especialistas da Polícia Judiciária com uma investigação cinéfila em torno de um film noir esquecido da velha Hollywood.

A secção recupera ainda um marco da história do cinema português com Ala-Arriba!, de José Leitão de Barros, no ano em que celebramos o seu 130º aniversário,  numa nova cópia digitalizada e restaurada pela Cinemateca Portuguesa. Cruzando ficção e etnografia no retrato da comunidade piscatória da Póvoa de Varzim, o filme antecipa um diálogo entre documentário e ficção social que atravessaria o cinema português nas décadas seguintes.

Em Heart Beat, a música, a literatura e o filosofia dão continuidade a este percurso pela memória e pela criação. Esta Vida de Marinheiro, de Paulo Miguel Antunes, recupera o percurso de João Aguardela, uma das figuras mais singulares da música portuguesa contemporânea. Imagens de arquivo, filmes pessoais e registos de concertos percorrem mais de duas décadas de uma vida dedicada à música, de Sitiados e Megafone a Linha da Frente e A Naifa.

A literatura chega ao ecrã em O Filme do Meio, de Margarida Gil, que acompanha Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho na revisão das provas de O Livro do Meio, escrito a quatro mãos. Luísa Costa Gomes e Fernando Cabral Martins juntam-se aos dois escritores como actores-leitores, dando corpo e voz ao texto.

Também entre a palavra, a memória e o pensamento se constrói Carta a José Bragança de Miranda, de Edmundo Cordeiro. Partindo da sala de aula, o filme aproxima o pensamento da infância e da intimidade, num retrato do filósofo José Bragança de Miranda construído entre as imagens que desaparecem e aquelas que permanecem. O Heart Beat apresenta ainda Carta a Uma Jovem Escritora, de Marta Pessoa, filme em filme que reivindica o lugar de cinco escritoras portuguesas injustamente esquecidas: Olga Gonçalves, Graça Pina de Morais, Maria Cecília Correia, Alice Sampaio e Maria Amélia Neto.

A música volta a ocupar um lugar central em Nha Balila – Dentu d’Algem, de Inês T. Alves e André Xina, que acompanha Nha Balila, lenda viva do Batuku – tradição cabo-verdiana que cruza canto, percussão e dança e que tem nas mulheres as suas principais guardiã –  numa viagem a Portugal aos 92 anos. Em Neste Quarto, de Ana Rocha de Sousa, a poesia, a empatia e a música surgem como formas de aproximação num mundo em colapso. Através do fado e da voz de Carminho, o filme percorre as paisagens do Japão, procurando na música uma possibilidade de encontro, compreensão e esperança.

No âmbito da retrospectiva dedicada a Lino Brocka, cineasta fundamental do cinema filipino, apresentada em parceria com a Cinemateca Portuguesa, destacamos um evento único organizado com o CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian. Lino Brocka – Anarquista Nacional, uma performance audiovisual de Khavn De La Cruz, no dia 17 de Outubro, pelas 18h00. Construída a partir dos vestígios do arquivo cinematográfico de Brocka, será possível assitir a uma projecção com acompanhamento musical, improvisado ao piano por De La Cruz, curador da retrospectiva e ele mesmo cineasta central da nova geração do cinema independente daquele país.

Em outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa.

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