Desde o seu nascimento que o mundo do cinema tem-se cruzado das mais diversas formas com o mundo da poesia. De Ethan Hawke a declamar W.H. Auden (Antes do Amanhecer) a Frances Mcdormand a recitar um soneto de Shakespeare (Nomadland – Sobreviver na América) muitos são os exemplos que podemos encontrar em todos os géneros e subgéneros cinematográficos. A lista que se segue apresenta cinco projetos diferentes, que o leitor poderá encontrar na plataforma de streaming FILMIN, em que a colisão entre estes dois mundos originou obras de carácter notável que merecem ser vistas, vividas e experienciadas:

Realização: Pablo Larraín / 2016 · 1h 43min
Iniciamos esta lista com a fita Neruda, que regressou ao catálogo da FILMIN desde o passado fim de semana, sobre um episódio da vida do famoso poeta e político chileno, Pablo Neruda, um dos grandes nomes da poesia do século XX.
O ano é 1948 e estamos em plena Guerra Fria que se sente em diversas nações, incluindo o Chile. No Congresso, o senador Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto (Luis Gnecco) – conhecido também pelo seu pseudónimo literário Pablo Neruda – critica ferozmente o Governo e a sua repressão anticomunista. Por esse motivo, o presidente Gabriel González Videla (Alfredo Castro) exige a sua destituição imediata e inicia uma caça ao homem. Neruda e a mulher, a pintora Delia del Carril (Mercedes Morán), refugiam-se sob nomes falsos no sul do país. O inspector Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal) é o homem designado para deter o casal. Durante a perseguição, qual jogo do gato e do rato, com o poeta a deixar pistas ao seu inimigo, Neruda irá reinventar-se como personagem literária e símbolo de liberdade.
Antes de embarcar na sua trilogia dedicada a grandes figuras femininas do século XX, Larraín realizou esta longa-metragem que oferece uma visão distinta do autor chileno. Um filme sobre a construção, projeção e manipulação da ideia de uma figura pública.

Realização: Abi Feijó, Alice Guimarães, Daniela Duarte, Laura Gonçalves / 2015 · 7min
A segunda sugestão que vos faço é a mais surreal e desconcertante. Trata-se de uma curta de animação baseada num poema de Álvaro Feijó, poeta natural de Viana do Castelo que nasceu no dia 5 de junho de 1916. Morreu em Lisboa, a 9 de março de 1941, três meses antes de completar 25 anos de idade vítima de tuberculose. Em vida apenas publicou a obra “Corsário” (1940). A sua poesia foca-se nas temáticas do amor (o seu lado carnal e espiritual), mas também nos problemas da sociedade e da humanidade. Os seus poemas possuem um carácter discursivo e natural, recorrendo ao verso livre. É uma figura-chave do movimento literário neorrealista português.
Nossa Senhora da Apresentação é uma curta-metragem de animação que mistura imagem real com animação. Nela deparamo-nos com o retrato de uma entidade celestial com poderes e contornos intensos, surreais e macabros. Um olhar frenético e irreverente que consegue adaptar de forma bem direta e visceral a poesia de Feijó.

Realização: Stella Corrá, Antero Rito, Patrícia Sousa, Madalena Costa / 2024 · 10min
A terceira sugestão é uma curta-metragem, que integrou o festival Revoluções Curtas de 2024, tendo vencido o Prémio do Público atribuído pelos espectadores do festival. A curta fornece um retrato honesto sobre o poder redentor que a escrita e declamação de poesia exerce sobre um grupo de reclusos do Estabelecimento Prisional de Aveiro.
Éramos Livres apresenta o quotidiano de um grupo de presos. Entre as conversas sobre idas ao tribunal e piadas sobre o talento para jogar à bola que uns reclusos têm e outros almejam, estes homens partilham os seus poemas. Através dos mesmos eles conseguem libertar-se e imaginar uma vida para lá das grades.

Realização: Jim Jarmusch / 2016 · 1h 58min
A quarta sugestão Paterson segue o dia-a-dia de um motorista de autocarro chamado Paterson que reside e trabalha na cidade de Paterson, em New Jersey (EUA). A sua rotina diária é bastante simples. Acorda antes do despertador, vai trabalhar, regressa a casa, passa tempo com a sua namorada (Laura), passeia o seu buldogue (Marvin) e consome uma cerveja no bar de um amigo. Mas Paterson também escreve poesia e as suas criações revelam a beleza que encontra em tudo o que o rodeia.
Escrito e realizado por Jim Jarmusch e protagonizado por Adam Driver e Golshifteh Farahani, esta é uma longa-metragem sobre o saber viver, observar e apreciar tudo o que ocorre no nosso quotidiano. Os poemas do condutor-autor do filme são da autoria de um poeta verdadeiro, Ron Padgett, sendo que três deles foram escritos diretamente para o filme. Trata-se de uma filme que poderá servir como um bálsamo para as almas de todos aqueles que já passaram por um ou mais burnouts.

Realização: Manuel Mozos / 2019 · 56min
Conclui-se a lista com o documentário Sophia, na Primeira Pessoa sobre a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen. Realizado por Manuel Mozos recorrendo ao espólio pessoal da autora, é um retrato justo, delicado, sincero e de uma beleza desmedida.
O filme aborda a relação da autora com a Natureza, a luta pela literacia e acesso à cultura para todos os retratos sociais, as histórias para o público infantil, entre outros temas.

Tive o prazer imenso de ver este documentário em estreia mundial no DocLisboa em 2019 no Cinema S. Jorge. Caro leitor, posso dizer com convicção que foi uma das melhores experiências que alguma vez tive numa sala de cinema. Senti ao sair da sala não só uma vontade imensa de dar largas à criatividade, e de observar com mais atenção e apreciação a beleza de tudo à minha volta, mas também com um lembrete da luta que possibilitou a liberdade de que usufruímos hoje.
O título do filme é literal. Apenas Sophia “está em cena” partilhando sabedoria, sagacidade e a sua visão do mundo (o ideal, o poético e o real).
Texto escrito por M. Filipe.

Ótimo artigo! Já vai algum tempo desde que vi um filme do Larraín e os que vi adorei 😍 Paterson já tinha na minha lista mas agora que sei que posso ver fácil no Filmin vai subir na pilha, definitivamente