Crítica: A Sombra do Corvo / Duas estrelas por M. Filipe

A Sombra do Corvo – A longa e tortuosa estadia do Corvo

2 estrelas Críticas

A semana passada o filme De Bicicleta de Mathias Mlekuz estreou nas nossas salas. Uma docuficção francesa em que acompanhamos um pai a lidar com a perda de um filho através de uma jornada de bicicleta pela Europa fora, acompanhado por um velho amigo e pelo seu cão de estimação. Esta semana estreia um outro filme sobre o luto, num género completamente diferente, intitulado A Sombra do Corvo. Este filme de horror britânico foca-se num jovem pai (Benedict Cumberbatch) que após a morte da sua esposa, vê a sua vida invadida por um enorme corvo. Esta criatura sombria, tenebrosa e (aparentemente) malévola abala de forma imediata o dia-a-dia deste homem e dos seus dois filhos (Richard e Henry Boxall), sendo que a mesma irá desestabilizar este trio de um modo inesperado.

Baseando-se no romance de Max Porter, Grief is the Thing with Feathers, o realizador britânico Dylan Southern mergulha o espectador logo na primeira cena no estado mental e psicológico muito particular em que esta família se encontra. A grande tragédia já aconteceu. Não somos testemunhos da realidade desta família, antes da mesma. A vida entretanto insiste em continuar. O Pai acompanha os filhos no seu regresso à escola, lida com as burocracias derivadas do seu novo estatuto de viúvo, inicia conversas com familiares e colegas sobre o seu eventual regresso ao trabalho, cozinha diversas refeições, prepara lanches e muitas muitas outras ações inevitáveis que têm de ser realizadas e são inadiáveis. Tudo isto ocorre ao mesmo tempo que esta família, lida com as várias fases do luto; aprendendo a navegar a nova realidade que lhes foi imposta pelo destino. E essa aprendizagem nem sempre é feita em conjunto ou de um modo harmonioso. É neste contexto chega o Corvo.

Esta figura fantástica e imponente, com a voz do sempre fiável David Thewlis sendo que a marioneta é manejada por Eric Lampaert, inicialmente parece residir somente na mente do Pai. Mas depressa os seus discursos fatalistas e acusações constantes sobre as falhas do chefe da casa, passam a ser uma constante no mundo real que o último habita. Pouco a pouco a barreira que separa o mundo real do imaginário, começa a ser cada vez menos perceptível. A certa altura as duas crianças começam a dialogar com o Corvo. Estarão estes dois rapazes a fingir que partilham a ilusão do Pai para o auxiliar ou será que estão de facto a testemunhar um fenómeno sobrenatural? O que é certo é que estás crianças não têm medo ou qualquer tipo de apreensão, quando interagem com a ave falante chegando até a jogar jogos com a dita. Ao contrário do pai, eventualmente, aceitam a sua presença como algo inevitável. A jornada emocional para que o seu progenitor possa olhar para este visitante inesperado, com outros olhos, será bem mais longa… e muito mais turbulenta.

Southern estreia-se com esta longa no terreno da ficção, após ter alcançado um grande sucesso, com público e crítica, com os seus documentários sobre figuras do mundo da música, como Distance Left to Run (2010) sobre os Blur ou Shut Up and Play the Hits (2012) sobre os LCD Soundsystem. Infelizmente a sua incursão pelo género do horror, não consegue surtir o efeito visceral e alucinante que seria necessário para esta história sobre o luto ser mais acutilante e memorável. A nível técnico o Corvo desloca-se pelo filme, primeiramente apenas em voz off e depois fisicamente em todos os espaços da casa, de um modo notável. Thewlis consegue criar uma personagem deveras arrebatadora, que é constantemente brutalmente honesta com os três membros desta família. Mas o ótimo trabalho vocal do ator, não consegue superar as fraquezas do argumento que cedo torna-se simplista e perde qualquer elemento de perspicácia ou sofisticação presente no prólogo e nas primeiras cenas. A performance de Cumberbatch é competente e credível, mas começava a ser repetitiva e desinteressante à medida que o argumento passa adquirir um sentimentalismo oco e superficial. Mesmo quando outros seres fantásticos entram no filme, e fazem da casa desta família um campo de batalha, primeiro emocional e depois literal, o filme nunca consegue recuperar a energia e pujança de cenas, mais ou menos fantásticas, do primeiro acto.

Um outro fato inescapável é que estamos perante uma longa metragem que vive na sombra do excelente filme O Senhor Babadook (2014) de Jennifer Kent. O filme que lançou a realizadora australiana, lida também com a perda de uma figura parental e de um cônjuge, mas nele os papéis são revertidos. O pai faleceu e a mãe ficou a criar o filho sozinha, nem sempre conseguindo lidar com o seu carácter imprevisível. O filme consegue abordar temas como o luto e a maternidade, de um modo cativante, aterrorizador e impactante, nunca perdendo energia ou esmorecendo do primeiro ao último minuto. Infelizmente ao longo da sua duração A Sombra do Corvo, acaba por se revelar fatigante e fastidioso, sendo que ao longo da mesma o espectador vai perdendo o interesse na trama do filme e no que poderá ser o seu desfecho final. Mesmo com uma equipa talentosa, à frente e atrás da câmara, esta é uma longa que acaba por não conseguir “levantar voo”.

Classificação: 2 em 5 estrelas. Texto escrito por M. Filipe.

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