Crítica: Enzo / Duas estrelas e meia por M. Filipe.

Enzo – 26ª Festa do Cinema Francês

2.5 estrelas Cannes Críticas Festa do Cinema Francês

No solarengo sul de França, uma família francesa burguesa tradicional reside numa elegante vivenda. O pai Paolo, interpretado por Pierfrancesco Favino, é um professor universitário exigente, mas justo. A mãe Marion, interpretada por Élodie Bouchez, é uma engenheira respeitada, muito requisitada que ainda assim arranja sempre tempo para a sua família. O casal tem dois filhos. O mais velho Victor, interpretado por Nathan Japy, prepara a sua candidatura para ir estudar numa universidade exclusiva em Paris, dando assim continuidade ao legado de excelência académica dos seus progenitores. O mais novo Enzo, interpretado por Eloy Pohu, é um rapaz saudável, bem-parecido e um desenhista amador com um talento invejável. Em teoria, Enzo deveria encaixar-se perfeitamente neste belo retrato da família ideal. Mas não é esse o caso. Aos 16 anos Enzo decide ir contra os desejos dos seus pais, decidindo abandonar os seus estudos e iniciar um estágio em alvenaria. Durante o mesmo desenvolve uma amizade com Vlad, interpretado por Maksym Slivinskyi, um ex-militar ucraniano. Esta será uma relação que irá transformar a vida deste jovem para sempre.

Enzo foi o filme de abertura da Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes do presente ano. O filme é realizado por Robin Campillo (120 Batimentos por segundo), com um guião concebido pelo mesmo e por Laurent Cantet (Palma de Ouro em 2008 por A Turma). Os dois cineastas franceses colaboraram frequentemente nas últimas décadas, na escrita de múltiplos argumentos para vários projectos. Após a morte de Cantet, em abril do ano passado, os produtores de Enzo propuseram a Campillo que terminasse o filme do seu colega e amigo de longa data. Assim sendo, esta é uma longa-metragem que possui duas vozes autorais… Infelizmente as mesmas nem sempre estão em sintonia.

A jornada do protagonista criado pelo duo Cantet/Campillo, inicialmente é intrigante. O que leva a que ele se revolte contra os seus progenitores? Tanto Marion como Paolo aceitam, mesmo que contrariados, a vocação escolhida pelo filho. Ambos esperam claro que, mais cedo ou mais tarde, Enzo enverede por um trajecto profissional que combine melhor com o seu estatuto social. Mesmo quando Enzo faz intervenções sarcásticas e provocatórias, contra o estilo de vida burguês, altamente privilegiado e aconchegado dos seus pais, os mesmos nunca se deixam afetar pelas mesmas. A compreensão e tolerância de ambos são tão constantes, que se torna difícil para o espectador compreender o que leva a que Enzo se revolte tanto contra eles. Não estamos perante um casal snob ou elitista. Assim sendo, as conversas de Enzo com os seus progenitores, em que este critica o estilo de vida da sua família, nunca são suficientemente cáusticas. As ideias bastantes liberais de ambos os pais levam a que estas intervenções, acabem por ser mais pretensiosas do que inflamatórias.

As únicas interações não pretensiosas que Enzo tem no seu dia-a-dia, são com Vlad. Fascinado pela carreira militar e carácter viril do colega, o jovem passa por uma verdadeira educação sentimental à medida que o afecto e a atracção que sente pelo colega vão crescendo cada vez mais. As cenas entre ambos são aquelas em que a ação do filme flui de forma mais natural. A constante modificação da relação entre ambos, é fascinante e merecedora de um filme mais seguro de si mesmo. Infelizmente, nas restantes subtramas do filme, Campillo não consegue cativar e prender o espectador, sendo a relação entre Enzo e a sua namorada Amina, interpretada por Malu Khe Biz, o melhor exemplo dessa disparidade. A última nunca é desenvolvida o suficiente, para criar qualquer tipo de impacto na narrativa do filme. No final apenas é reforçado o facto que Enzo é uma pessoa muito ingénua e pouco perspicaz, com uma grande dificuldade em conseguir compreender o ponto de vista e emoções daqueles que o rodeiam. Quer esteja num estaleiro, a almoçar com colegas, ou na intimidade do seu quarto, com uma rapariga que o deseja, este moço é sempre muito naïf.

As performances de Favino, Bouchez e Slivinskyi são exemplares e todas elas possuem uma ternura e sensibilidade imensas, mas não suficientes para gerar um drama absorvente. A performance de Pohu é justa e sincera, mas acaba por ser demasiado comedida, numa longa que necessitava de um argumento mais fortificante. Enzo possui uma premissa interessante, com bastante potencial. No entanto, mesmo com um trio de ótimas performances, o filme nunca consegue ir além do estatuto de curiosidade cinematográfica. Esta longa pode dar azo a discussões estimulantes entre fãs de Cantet e Campillo… mas para os restantes espectadores acabará por ser somente um filme que não causa grande impacto.

Enzo fez parte da programação da 26ª edição da Festa do Cinema Francês, estando presente na secção PREMIÈRES da mesma.

Classificação: 2.5 em 5 estrelas. Texto escrito por M. Filipe.

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