Crítica: Le Rendez-Vous de l’étè / Três estrelas e meia por M. Filipe

Le Rendez-Vous de L’étè – 26ª Festa do Cinema Francês

3.5 estrelas Críticas Festa do Cinema Francês

Paris, agosto de 2024. Os Jogos Olímpicos prosseguem a todo o vapor. Blandine (Blandine Madec), uma rapariga de 31 anos vinda da região da Normandia, chega à cidade para assistir às competições de natação e encontrar-se com a sua meia-irmã Julie (India Hair) com quem perdera o contacto. Blandine, professora de piano com um modo de ser gentil e meigo, terá de aprender a navegar uma cidade em constante alvoroço. A estadia na capital francesa desta jovem normande, será desconcertante, surpreendente, agitada… em suma inesquecível.

Le Rendez-Vous de l’étè é a primeira longa-metragem da atriz francesa Valentine Cadic. O filme esteve inserido na secção Perspectives do Festival de Berlim do presente ano. Cadic apresenta Blandine como um peixe fora de água, que passeia de forma errante, numa Paris completamente absorvida pela grandiosidade e frenesim da festa olímpica. A realizadora, que mencionou o filme A Batalha de Solferino (2014) de Justine Triet como influência na filmagem desta sua estreia, consegue captar as dimensões gigantescas dos eventos da festa desportiva; ao mesmo tempo que demonstra o modo como a sua heroína navega pela cidade numa espécie de bolha invisível de calma e serenidade. No meio do caos, Blandine nunca se deixa abalar, prosseguindo sempre em frente com uma confiança constante de que tudo se resolverá. A banda sonora original de Saint DX, onde o sintetizador e o teremim predominam, cria uma sonoridade onírica e adocicada que, em conjunto com as belas paisagens de uma Paris solarenga, cria um efeito tranquilizante que deixa o espectador apaziguado, mesmo quando Blandine tem de lidar com situações stressantes e berbicachos inesperados.

Ainda assim não estamos perante uma “Paris de cartão postal”. Paul (Matthias Jacquin), ex-marido de Julie, denuncia constantemente nas suas conversas com Blandine as medidas desumanas e atrozes implementadas, pelas autoridades responsáveis pela organização da festa desportiva, para “limpar” a cidade e retirar todos os sem-abrigos, toxicodependentes ou mendigos que se encontrem no epicentro dos Jogos Olímpicos. Ao mesmo tempo que acompanhamos as publicações nas redes sociais da nadadora olímpica francesa Béryl Gastaldello, atleta por quem Blandine nutre uma particular admiração, e a energia contagiante com que a mesma se depara nas competições, na Aldeia Olímpica e em todas as ruas da cidade; o espectador também presencia os protestos em que Paul participa contra a “limpeza social” provocada pelos Jogos Olímpicos. A longa apresenta assim os “dois lados da medalha” de um evento destas dimensões.

Imagem/still do filme 'Le Rendez-Vous de L’étè'
Imagem/still do filme ‘Le Rendez-Vous de L’étè’

A peça-chave do filme é a interpretação de Madec. O carácter terno, sereno e pouco extrovertido de Blandine leva a que muitos dos parisienses que conhece nesta viagem confundam a sua timidez com uma certa ingenuidade e naïveté. Mas cedo os mesmos compreendem que a empatia e gentileza extremas de Blandine, não a tornam uma pessoa mais frágil ou fraca. Apenas fazem com que lide com os seus problemas e desafios, de um modo diferente. Mesmo que em muitas cenas do filme a sinceridade de Blandine não seja bem-vinda, criando frequentemente interações insólitas e cómicas com familiares e estranhos (a sequência na esquadra da polícia é especialmente deliciosa); Blandine consegue ainda assim criar alguma cumplicidade inaudita com algumas pessoas. Quer seja durante um piquenique familiar, em que revela à sua sobrinha quão difícil têm sido superar o final de uma relação recente; ou numa conversa com um segurança de um estádio desportivo à beira-rio em que a protagonista se interroga sobre o valor da sua profissão; o modo de ser de Blandine, que inicialmente causa estranheza, gradualmente desarma todos aqueles com quem se cruza ao longo do filme. Esta é uma personagem enternecedora a quem o espectador se afeiçoa, em grande parte, graças à performance amável e cuidadosa de Madec e à realização confiante de Cadic.

Le Rendez-Vous de l’étè cumpre o caderno de encargos não oficial, das típicas comédias comerciais centradas num verão marcante. Filmes que têm como protagonistas jovens de carácter tímido, que viajam para uma cidade que desconhecem e passam por vários episódios caricatos e/ou emotivos, acabando por “desabrochar” graças aos mesmos. No entanto, este filme sobressai-se nesse grupo, ao apresentar uma jornada que não culmina com o “desabrochamento” da protagonista, mas com uma reafirmação dos seus valores e da forma como interage com o mundo. Esta é uma comédia refrescante e cativante, sobre a importância da empatia e da gentileza na sociedade atual.

Le Rendez-Vous de l’étè faz parte da programação da 26ª edição da Festa do Cinema Francês, estando presente na secção competitiva da mesma. A Festa do Cinema Francês ocorre em Lisboa, até ao final de outubro, e em novembro, em diversas cidades do país.

Para mais informações visite o site: https://festadocinemafrances.com/

Classificação: 3.5 em 5 estrelas. Texto de M. Filipe.

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