Crítica: O Riso e a Faca / Quatro estrelas e meia por Jasmim Bettencourt

O Riso e a Faca – Uma Auto-Reflexão do Olhar Europeu

4.5 estrelas Cannes Cinema Português Críticas

Atravessando de carro o deserto do Sahara, Sérgio chega a Bissau, como quem é transportado para uma outra dimensão. Tendo sido contratado por uma ONG para finalizar um relatório de viabilidade ecológica da construção de uma estrada, começada por um antecessor que desapareceu misteriosamente, Sérgio incorpora uma posição de “salvador branco”. Mas à medida que vai se integrando mais no contexto de Guiné-Bissau e se relaciona com as pessoas que vai encontrando, mais o verdadeiro impacto da sua presença vai-se revelando. O Riso e a Faca é um filme com um conflito interno, tanto na forma como aborda a sua história e na forma como aborda a sua personagem central. Pedro Pinho, com uma sensibilidade auto-consciente, constrói um filme que nos engole de forma intensa na vida deste personagem e nos esbofeteia com questionamentos sobre o olhar europeu presente nele.

Sérgio é a típica personagem do “salvador branco” contemporâneo, trabalhando para uma ONG num país do Sul Global e colaborando com as elites locais para um determinado conceito de desenvolvimento. No entanto, em O Riso e a Faca este personagem é constantemente questionado. Perdido nesta paisagem de sub-desenvolvimento, a sua auto-compreensão vai se alterando, nunca chegando a uma conclusão óbvia. De uma certa forma, este personagem reflete o próprio filme, que também se vai auto-questionando, nunca chegando a uma resposta clara – talvez porque esta não existe. Pinho está ciente da sua posição enquanto realizador europeu que faz um filme passado num país africano, tal como a personagem principal está ciente da sua posição de privilégio. No entanto, existe um auto-debate constante dentro destas imagens que vamos vendo, perdidas na vida noturna de Bissau, na selva e no deserto. O próprio espectador não está ileso deste debate, pois o seu próprio olhar é também potencialmente e igualmente colonialista ao da câmara que capta as imagens que este vê. No fundo, o que Pedro Pinho nos apresenta é um questionamento inexorável que nos atormenta como uma onda de calor durante três horas e meia.

Não existem respostas claras, pois, da mesma forma que Sérgio nunca compreende a totalidade da sua posição enquanto ator neo-colonialista, a nós é-nos difícil distanciar-nos de nós próprios para compreender a nossa posição no mundo e o nosso papel neste. No entanto, o objetivo deste filme não é em dar respostas, mas precisamente esse auto-questionamento – o questionamento do olhar do cinema, o questionamento de sistemas neo-coloniais, o questionamento do espectador. O que aparentemente poderá parecer uma narrativa bastante linear, revela-se assim algo mais complexo e estimulante – se bem que, em alguns momentos, o diálogo possa ser intrusivamente didático.

Acompanhando estas imagens reflexivas, que possuem uma beleza e intensidade estonteantes, estão interpretações igualmente estonteantes, com especial destaque a Cleo Diára, que rouba todas as cenas em que aparece e nos faz desejar por mais. O Riso e a Faca leva-nos por uma verdadeira jornada emocional, fazendo-nos sentir a intensidade desta realidade que retrata. De uma forma despretensiosa, questiona o seu próprio olhar e o seu próprio lugar enquanto objeto artístico através do questionamento da sua personagem central. É certamente um dos desafios cinematográficos do ano, mas é um que é infinitamente estimulante, convidando a uma nova reflexão sobre o nosso olhar sobre o mundo.

Classificação: 4.5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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