Still/imagem do filme 'O Rei Leão'

Rei Leão, o Erro e o Perdão

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O homem é falível. Logo, tal como eu erro, todos erram. Portanto, se todos erramos, devemos sempre perdoar, certo? Ou depende da gravidade do erro? Se essa é sequer possível de medir… E do lado de quem errou, devemos deixar que esse erro nos defina ou simplesmente esquecê-lo? Bem, são tudo perguntas que, à partida, não tenho a resposta, mas que, de alguma forma, se relacionam com o clássico Rei Leão. Eu sei, sempre critiquei o excesso de procura de significado, mas hoje mordeu-me o bichinho filosófico. Assim, sejam bem-vindos ao meu projeto mais ambicioso até à data, a relação entre estes três conceitos: Rei Leão (vou contar como conceito para efeitos estéticos), o Erro e o Perdão.

Antes de mais, gostaria de deixar claro que não imagino que o filme tenha sido feito para pensar e abordar estes temas ao extremo; afinal, é um filme infantil. Contudo, semeia as ideias para uma eventual reflexão e, como são temas sobre os quais me delibero recorrentemente no dia-a-dia, decidi deixar o meu parecer. Isto para dizer que irei utilizar o filme como um ponto de partida, não como um objeto de estudo. Rei Leão é uma experiência que proporciona arrepios do início ao fim, mérito de uma banda sonora extraordinária do lendário Hans Zimmer. É uma história inspiradora sobre superar o passado, perda pessoal e não ter medo de ser quem nós somos ou quem estamos destinados a ser; emociona tanto na tristeza como na alegria, que é a recompensa de uma jornada pessoal notável de Simba. Foi precisamente o conflito interior de Simba que levou à escrita deste artigo, pois é nele que estão os elementos centrais que vou discutir. Simba está convencido de que o seu erro levou à morte do seu pai e, embora se arrependa todos os dias, não se consegue perdoar a si mesmo.

Primeiramente, gostaria de abordar o Erro. Ao início, referi que o eventual perdão pode estar relacionado com a gravidade do erro; a questão é como é que medimos tal coisa. A solução lógica poderia passar por idealizarmos um gráfico onde consideramos o impacto e a intenção do erro, e o ponto de encontro dos dois corresponderia, portanto, à gravidade do mesmo. Neste caso, o erro de Simba apresenta grande impacto (morte do pai), mas é desprovido de qualquer intenção (acidental), pelo que se poderia concluir que seria um erro mediamente grave, talvez, quem sabe, apto para ser perdoado. Ora, certamente que estão a pensar o mesmo que eu, que ideia bacoca e risível, pois estamos a resumir o ser humano inteiramente à lógica, ignorando a parte emocional. A meu ver, o facto mais relevante que torna alguém merecedor ou não de perdão, é o arrependimento. Todavia, é fulcral distinguirmos o arrependimento necessário do voluntário.

O necessário é representado por Scar, ou seja, aquele que surge quando não há outra solução. Scar arrepende-se quando está derrotado, porque é a única opção possível para a sua sobrevivência. Este não se arrepende pelas atrocidades que cometeu, arrepende-se no momento em que lhe é conveniente. Outra forma de este tipo de arrependimento se manifestar, talvez mais relacionável, é quando vem da necessidade de preservar a nossa imagem exterior. Arrependemo-nos com base no que os outros estão/estariam a pensar de nós, se não o fizéssemos. Não porque sentimos uma grande culpa interior ou não desejamos repetir tal ato, mas sim porque é o melhor para nós numa perspetiva social. É motivado pelo desejo de manter reputação, não pela introspeção. Já o voluntário, mais raro, é motivado pela culpa interior e pelo mal que nos sentimos connosco próprios e com a pessoa que magoamos. Simba é o protagonista desta vertente. Não passa um dia que este não se arrependa; a culpa afeta-o de tal maneira que este esquece-se de quem é, já não se reconhece, daí um dos temas principais do filme ser a icónica frase de Mufasa: “Remember Who You Are”. Este arrependimento passa por enfrentarmos as consequências, assumindo a responsabilidade, que começa por perceber que estivemos mal e que tal não está de acordo com a pessoa que somos ou queremos ser. Nasce do conflito interior, não da opinião exterior. Se pudesse resumir numa só frase, o necessário está arrependido do resultado do erro; o voluntário está arrependido do erro.

No que toca ao perdão, no filme este está presente também no conflito interno de Simba, pelo que se trata de uma situação de nos perdoarmos a nós mesmos. Devo dizer que, nesta análise, vou-me focar maioritariamente no perdão do outro. Antes de discutir quando o perdão é válido ou não, acho importante definir o verdadeiro significado de perdão. Perdoar não é esquecer nem ignorar o mal que nos foi feito, mas sim aprender a não guardar rancor pelo próximo. Se estivermos atentos, na maioria dos casos acontece exatamente o contrário. Quantas vezes não acenamos e dizemos que “está tudo bem”, quando, na verdade, ainda estamos verdadeiramente ressentidos? Portanto, naturalmente, é um processo demorado, como qualquer coisa sincera e orgânica. Dito isto, o tempo que Simba demora a acertar contas consigo mesmo é mais do que justificado e é uma forma de nos mostrar que mais vale um perdão demorado e sincero do que um “deixa estar” sem qualquer intenção, seja com os outros ou connosco. Em relação a se devemos perdoar ou não, não sou nenhuma autoridade nesse capítulo. Contudo, partilho a visão católica do perdão. Ou seja, o perdão é sempre a atitude nobre e correta; contudo, deve vir acompanhado de arrependimento da outra parte. Uma má interpretação deste critério é em “Family Guy”, onde, num sketch com o intuito de gozar com esta forma de estar dos católicos perante o perdão, Bin Laden, momentos antes de ser executado pelas forças militares americanas, arrepende-se de todos os seus pecados (arrependimento necessário), o que leva a que este seja perdoado por Deus e vá para o céu. Embora reconheça a graça, é uma falha clara de interpretação. Um exemplo que resume na perfeição o perdão na perspetiva catolicista é a parábola do filho pródigo. Trata-se de um filho que está farto de trabalhar para o pai, então pede antecipadamente a sua herança, ao que o pai lhe concede, e parte para aproveitar uma vida luxuosa. Como seria de esperar, este arruína-se rapidamente e, em pouco tempo, cai na miséria; contudo, o seu orgulho impediu-o de voltar para casa do pai. No entanto, com o tempo, decide assumir a responsabilidade e a culpa ao pôr o orgulho de parte e retornar a casa (arrependimento voluntário). O pai, em vez de o condenar e reprimir, acolhe-o de braços abertos, sem sequer hesitar. Em suma, o que isto quer dizer é que o perdão está sempre à nossa espera, mas o arrependimento tem de existir e ser sincero.

Numa nota final, todos somos falíveis, mas não devemos deixar que a falibilidade nos defina; pelo contrário, é ao assumir os nossos erros e ao tornarmo-nos conscientes deles que temos a certeza de quem não queremos ser e de quem queremos ser. Todo o erro é remediável e perdoável; o ingrediente-mágico e a ideia-chave é que tem de partir de nós, motivados pelas razões certas. Relembrar que, se queremos ser perdoados, também devemos saber perdoar. No fundo, isto é um alargamento, ao oposto de um resumo, considerável da jornada interna de Simba. Assim, despeço-me com as palavras sábias de Rafiki: “Oh yes, the past can hurt. But the way I see it, you can either run from it or learn from it.”.

Texto escrito por Francisco Empis.

1 thought on “Rei Leão, o Erro e o Perdão

  1. Obrigada Francisco, por este artigo. Sobretudo, porque além de gostar imenso do “outro lado deste filme”, é satisfatório ver bons textos e bem pensados ( ainda bem que se deixa morder por esse bichinho filosófico…). Apenas tenho dúvidas relativamente a Scar, porque ele age por medo e por instinto, dir-se-ia que o pedido de perdão dele não passa de um mecanismo de defesa, puro e simples. Esse pedido não é ditado pela consciência do erro das suas ações contra Simba, mas sobre si próprio. Foi mal sucedido na usurpação de poder, errou, portanto, nessa demanda e lamenta-o, não lamenta o que fez para o tentar. Por isso, para mim, o Scar valida aquelas situações que o Francisco também referiu do pedido de perdão por temer o castigo. É como ter respeito a quem nos mete medo, pode falar-se em respeito ou medo? Em ambos os casos, parecem-me reações.
    À margem disto, que não belisca a qualidade do artigo, apreciei a análise que reforça o meu sentir sobre este filme, como já vai sendo algo raro para crianças ou adultos que não deixaram de ser.

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