Uma herdade no Alentejo que se estende até perder vista, a manifestação física da obscena riqueza acumulada, e uma família burguesa que sente essa riqueza a sair das suas mãos e já não vê o valor dessa herdade. Uma herdade que é um microcosmos que se estende para além das suas fronteiras para englobar um país dominado por uma classe que vê a sua posição de poder com ansiedade, vendendo-o ao desbarato, numa tentativa desesperada manter o seu privilégio enquanto lentamente, no horizonte do futuro cada vez mais próximo, o mundo arde. Através do drama de uma família e seus empregados, João Nuno Pinto e Fernanda Polacow constroem um retrato de Portugal que se entrelaça e perturba, esgravatando nas redes relacionais que explora para refletir um país (e um mundo) em colapso.
De forma sorrateira, a atmosfera deste filme infiltra-se em nós enquanto o assistimos. O que parece uma exploração de dramas pessoais lentamente torna-se em algo mais. Nestas teias de relações que observamos estão não só tensões emocionais, mas também tensões de classe. Cicatrizes da história da servidão em Portugal são reabertas, ansiedades económicas de uma classe latifundiária medíocre, que vê o seu colapso refletido no fantasma da imigração, são reveladas, e as próprias ansiedades do proletariado do Norte Global, que se vê esquecido e esmagado, são manifestadas de forma subtil neste enredo retorcido, fazendo lembrar o cinema de Lucrecia Martel, que reflete sempre mais sobre a sociedade em que se insere do que aparenta.
Esta análise que arde lentamente é em si ancorada por um conjunto de interpretações sublimes que elevam este filme e nos hipnotizam. Ao seu centro, estão Beatriz Batarda, Margarida Marinho e Rita Cabaço, cada uma incorporando as neuroses e complexidades das suas personagens e trazendo um peso indelével ao significado destas mulheres neste filme. A estrutura tripartida deste filme, focando-se em diferentes momentos em cada uma destas mulheres, é o que nos permite refletir sobre as diversas faces deste filme e o que este pretende refletir sobre a sociedade portuguesa. Isto porque coloca-nos em pontos de vista diferentes que refletem tanto modos diferentes de ver o mundo como o próprio interior destas personagens, convidando-nos a refletir sobre o que cada uma destas três mulheres representa.
18 Buracos para o Paraíso funciona como um espelho flamejante de um país em convulsão, consciente de dinâmicas de classe cada vez mais abafadas por uma sociedade que se auto-mistifica. Com uma fotografia hipnótica e uma banda sonora perturbadora, somos transportados para um mundo psicológico de desorientação que revela mais sobre nós do que esperaríamos. De uma forma perversa, as chamas e o calor que assombram este filme transformam-se tanto em imagens metafóricas como imagens literais num mundo em colapso social, económico e ambiental.
Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.
