Crítica: Como Treinares o Teu Dragão / Três estrelas e meia por Vanderlei Tenório

‘Como Treinares o Teu Dragão’: um voo que não esquece a origem

3.5 estrelas Críticas

Era inevitável que a DreamWorks revisse Como Treinares o Teu Dragão em live-action. À luz das reinvenções que a Disney já operou sobre Mogli, Alice e outros clássicos, parecia natural que a concorrente quisesse revisitar o seu próprio legado. Entrei na sala de cinema com desconfiança, antecipando uma versão despida de alma, uma mera operação de nostalgia convertida em lucro. Saí, contudo, surpreendido e encantado. Existe algo na narrativa de Soluço e Banguela que continua a fascinar, mesmo quando transposta para actores de carne e osso.

O maior mérito do remake reside no respeito pela essência da história. Soluço permanece aquele adolescente marginalizado, sagaz e inquisitivo, capaz de discernir que os dragões não são inimigos a subjugar, mas seres dignos de amizade. Mason Thames confere ao personagem uma energia juvenil que oscila entre ansiedade, coragem e determinação, enquanto Nico Parker, no papel de Astrid, transmite uma força serena que harmoniza a dureza viking com nuances de ternura e empatia.

Gerard Butler, retomando Stoico, mantém o estoicismo e a autoridade da animação original, mas agora com a densidade física que só o live-action permite. E Banguela continua a monopolizar a atenção. Travesso, adorável e profundamente expressivo, cada gesto do dragão comunica curiosidade, prazer e afeição, tornando impossível não sorrir ao vê-lo interagir com Soluço nas sequências de voo, que apesar de digitais, ainda conservam a capacidade de comover.

O voo de Soluço e Banguela constitui um ponto alto do filme. Existe uma sequência central que quase captura a intensidade emocional da animação: ambos sincronizam-se, cortam os céus, deslizam sobre águas e mergulham em paisagens cavernosas. A sensação de liberdade e euforia é quase tangível. Embora desprovida da poética das nuvens digitais do filme original, transmite uma eletricidade que nos prende ao ecrã. Durante alguns instantes, esqueci que observava atores humanos em cenários reais. Trata-se de uma experiência simples, mas poderosa, que comprova que o remake consegue, quando ambiciona, evocar a magia da história original.

Existem, naturalmente, limitações. Alguns cenários e efeitos digitais não replicam a beleza etérea da animação. As paisagens parecem estáticas em certos momentos, e algumas cenas de acção perdem nitidez devido à estética de ecrã verde. Em determinadas passagens, distingue-se com dificuldade os personagens da ambientação, e a sensação de grandiosidade dissipa-se. Ainda assim, estas imperfeições não comprometem a experiência. No centro permanecem os personagens e a história, e é isso que provoca emoção, sorriso e recorda-nos porque nos apaixonámos por esta saga.

O remake proporciona também uma oportunidade para detectar nuances que poderiam passar despercebidas na animação. Existe uma profundidade emocional nos olhares de Soluço e Astrid, uma tensão latente entre estes e os adultos de Berk, sobretudo Stoico, dividido entre proteger a comunidade e aceitar que o filho confronte tradições. Pequenos pormenores, uma expressão, um gesto contido ou um olhar prolongado acrescentam camadas à narrativa, permitindo que o público adulto perceba uma dimensão mais humana da história.

A relação entre Soluço e Banguela ganha densidade quase palpável. A amizade deixa de ser simbólica para se tornar concreta. Cada toque e cada reacção do dragão reverberam emocionalmente. Em certas cenas, acreditei estar perante um animal real, capaz de sentir e de se conectar com um humano. Esta ligação constitui a alma do filme, e o remake compreende isso com precisão.

O equilíbrio entre humor, ternura e tensão é outro trunfo do filme. As piadas mantêm-se, ora subtis, ora mais físicas. Existe leveza suficiente para que o filme não se torne pesado, sem descurar os temas centrais: amizade, coragem, aceitação do outro e responsabilidade. Dean DeBlois revela mestria ao manter este equilíbrio, especialmente ao orientar jovens atores que necessitam transmitir emoção genuína em cenas de acção e diálogos complexos.

A estética do live-action, ainda que inferior à animação em termos de impacto visual, possui o seu encanto. As paisagens de Berk, mesmo digitais, irradiam uma rusticidade que se coaduna com o espírito viking. O design de produção consegue transmitir comunidade, tradição e conflito de forma tangível. Os dragões, sobretudo Banguela, são magistralmente concebidos, e a tecnologia actual permite expressões quase humanas, intensificando a empatia do público.

O núcleo da história permanece intacto. A coragem de Soluço ao desafiar preconceitos, a aceitação do diferente e a construção de pontes entre mundos outrora inimigos constituem o coração da saga. Observar estas dinâmicas em atores reais acrescenta um peso precioso. A jornada de Soluço ultrapassa o território da animação e transforma-se numa experiência quase íntima, na qual risco, alegria, perda e conquista se tornam sensações palpáveis.

São inevitáveis certos tropeços: rigidez em determinadas cenas de acção, dificuldade na integração de atores com ambientes digitais e alguma frieza nos diálogos. No entanto, estas falhas não diminuem o prazer de assistir. Recordam que estamos perante uma obra de transição que honra o passado e apresenta algo novo a uma geração diferente.

Saí do cinema com uma sensação rara. Mistura de nostalgia e descoberta. O remake não substitui a animação original, mas oferece uma perspectiva nova, permitindo reviver a história sob outros ângulos. Ver Soluço e Banguela ganhar vida em carne e osso, sentir a tensão das cenas, rir com as piadas e suspirar nos momentos de ternura foi um prazer genuíno.

Para mim, isso torna o remake válido. Não necessita ser perfeito nem superar o original. Basta recordar-nos porque nos apaixonámos por estes personagens e por esta narrativa. Nesse sentido, Como Treinares o Teu Dragão em live-action cumpre a sua missão: é um convite a sonhar, rir, emocionar-se e acreditar que histórias amadas podem reinventar-se sem perder a essência.

No final, percebe-se que o que verdadeiramente importa é a experiência, a emoção e a conexão. Mesmo com limitações técnicas ou visuais, o filme provoca sorriso, recorda a beleza da amizade entre um rapaz e o seu dragão e reacende a crença na magia de histórias bem contadas. Isso é o que torna Como Treinares o Teu Dragão uma aventura que vale a pena, mais uma vez.

Recentemente, o filme foi nomeado ao BAFTA na categoria de melhores efeitos visuais.

Classificação: 3.5 em 5 estrelas. Texto escrito por Vanderlei Tenório.

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