Seguindo os passos da sua filha, que desapareceu depois de ir numa viagem a fotografar campos de futebol pela Geórgia, Irakli tenta a encontrar no meio de paisagens bucólicas. O que começa por uma demanda torna-se num épico onírico pelos fantasmas de um país, cujos rastos estão em florestas avermelhadas e estádios enferrujados. Filmado com um Sony Ericsson de 2008, as paisagens observadas por Alexandre Koberidze transformam-se em espetros de baixa resolução, assombrações que desafiam a perceção. Através deste efeito, o espectador é levado por uma viagem num estado perto tanto da sonolência como da vigília, convidando-nos a confrontar o mundo esvaziado da contemporaneidade.
Poucos filmes funcionam como um portal para o mundo dos sonhos como Dry Leaf. Há algo de perturbador e hipnótico nestas imagens imperfeitas e pixelizadas. Como um sonho, dá a ideia de um mundo destacado da nossa realidade. Percorremos paisagens da província georgiana, habitada por diversos animais, crianças, idosos, e personagens invisíveis. Tudo é como um sonho bucólico, com elementos difíceis de discernir, quase fabulásticos, No entanto, tal como os sonhos, estas imagens revelam algo de inquietante e real por baixo da sua superfície de 144p.
Nesta demanda que reflete epopeias do passado antigo é refletido o passado de um país em mudança. Campos de futebol vazios e aldeias abandonadas no meio de montes refletem uma vida no passado que desapareceu – de uma certa forma, fazendo-nos lembrar viagens pelo interior de Portugal, também ele cada vez mais esvaziado. Através deste olhar digital que recusa a limpeza visual, as mudanças de um mundo em digitalização e capitalização são centradas através de ausências e esvaziamentos, como se se tratassem de pegadas fossilizadas. Desta forma, as imagens que observamos são assombradas por uma melancolia contagiante, dando um peso tremendo a esta história rarefeita que acompanhamos.
Através da simplicidade do enredo e da imperfeição da imagem, Alexandre Koberidze constrói um objeto artístico de dimensões tremendas, um verdadeiro épico da época digital e do capitalismo tardio. Nestas imagens que escapam à resolução, ecoam cicatrizes quiméricas do passado. Na imperfeição digital, encontramos o que é de mais profundamente humano, gritando e assombrando num mundo cada vez mais hostil à expressão humana.
Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.
