Crítica: Privadas de Suas Vidas / Quatro estrelas por Jasmim Bettencourt

Privadas de Suas Vidas – O peso emocional da divisão mais íntima

4 estrelas Críticas MotelX

Com um passado trágico, problemas intestinais crónicos e ume filhe rebelde, Malu tenta ter uma vida normal enquanto organiza um chá revelação para uma cliente que é influencer e mora no mesmo prédio. À medida que o seu drama se vai desenrolando, fenómenos estranhos começam a acontecer associados às zonas mais íntimas e sensíveis do prédio: as casas de banho. O cinema de terror é um cinema de fluidos: sangue, vísceras, pus, até esperma e urina. No entanto, um fluido é constantemente censurado do terror (e do cinema em geral), como se fosse algo tão vergonhoso que não merece imagem, como se fosse algo demasiado íntimo para alguma vez ser tema da arte: o cocó. Em Privadas de Suas Vidas, este fluido tabu é colocado no centro da sua narrativa e alegoria, explorando temas de amor, maternidade e identidade a partir disso.

Como Mario Mieli diz em Por um Comunismo Transexual, é o ânus a primeira coisa que foi privatizada na história da humanidade. É algo a ser escondido, apenas referido para fins humorísticos ou de injúria – tanto que foi construída toda uma divisão da casa à volta da sua atividade, divisão essa carregada de uma carga de discrição e vergonha dentro da nossa cultura. Para a sociedade heterossexual, toda a atividade sexual associada ao ânus é vista como algo ainda mais tabu que o sexo vaginal, também muitas vezes apenas referida em contexto de injúria.  No entanto, a vergonha e a injúria estão muitas vezes associados ao desejo e curiosidade, e tudo o que é privado é, simultaneamente, passível de transgressão e desejo por essa transgressão. Por isso a sociedade heterossexual na verdade vive numa obsessão por essa transgressão (sendo a injúria, por exemplo, uma sublimação dessa curiosidade de transgressão). Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, com a sua perspetiva obviamente queer, fazem exatamente uma desprivatização das vidas e emoções destas personagens e chafurdam nos preconceitos e desejos reprimidos da sociedade heterossexual, confrintando o espectador e jogando com isso para construir um melodrama de terror escatológico que toca exatamente nas feridas escondidas pelo tabu cis-hetero e burguês.

Este é um terror “des-privatizante”, lentamente removendo as camadas que as diversas personagens colocam à sua volta para revelar a sua realidade, tornando este um filme profundamente envolvente, com um elenco impossível de não amar. Misturando humor e sentimento, Privadas de Suas Vidas surpreende pela sua complexidade emocional que nos apanha, metaforicamente, com as calças em baixo, e não tem medo de chocar, envergonhar, desconstruir e enojar. É um filme profundamente e irreverentemente queer, estéticamente e emocionalmente descendente dos filmes de Almodóvar, principalmente Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos e Tudo Sobre a Minha Mãe. No fim, é na casa de banho que estamos mais vulneráveis e revelamos mais sobre nós, e é aí que Vinagre e Gewdner encontram e estudam os seus personagens, tornando este um filme profundamente nojento, mas também sentimental das formas mais belas.

Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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