La Grazia, o mais recente filme de Paolo Sorrentino, inaugurou a 19.ª edição da Festa do Cinema Italiano de Lisboa, depois de ter sido apresentado com grande sucesso no Festival de Cinema de Veneza. Acolhido calorosamente pela crítica e pelo público aquando da sua estreia nas salas italianas, em janeiro deste ano, o filme confirma mais uma vez a capacidade do realizador napolitano de conjugar reflexão política, ironia e sugestão visual.
A sessão de abertura contou também com a presença do antigo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, uma presença particularmente significativa à luz dos pontos de contacto entre a figura real e o protagonista do filme: um chefe de Estado culto, católico, no qual o próprio Rebelo de Sousa poderá ter-se reconhecido, pelo menos em parte.
A história centra-se nos últimos seis meses de mandato — o chamado “semestre branco” — do Presidente da República Italiana, uma figura de ficção parcialmente inspirada em Sergio Mattarella. Mariano De Santis, interpretado magistralmente por Toni Servillo, é um homem austero, de formação democrata-cristã, viúvo, acompanhado pela filha e por um círculo restrito de afetos.
Ao longo do filme, o Presidente é confrontado com três decisões cruciais: assinar ou devolver ao parlamento uma lei sobre a eutanásia e avaliar dois pedidos de indulto (“la grazia” em italiano). Por um lado, um antigo professor que matou a esposa doente de Alzheimer; por outro, uma jovem mulher que assassinou o marido após anos de violência e abusos. A estes dilemas públicos junta-se uma questão privada que atormenta De Santis: a suspeita de uma traição da mulher, ocorrida décadas antes.
Um papel central é desempenhado pela relação com a filha, também jurista, que trabalha ao seu lado e o acompanha constantemente nas suas decisões. O vínculo entre ambos é profundo, mas marcado por tensões: a filha defende convictamente a aprovação da lei da eutanásia, entrando em confronto direto com o pai, mais cauteloso, atormentado e aparentemente incapaz de decidir. Este conflito geracional e moral acrescenta profundidade à personagem do Presidente, revelando as suas fragilidades e o peso das responsabilidades institucionais.
Sorrentino constrói a narrativa através de episódios aparentemente desligados, que se justapõem para compor um retrato multifacetado do protagonista. De Santis é apelidado de “betão armado” pela sua rigidez moral, mas ao longo do filme revela-se uma progressiva abertura a uma dimensão mais humana e vulnerável. Pequenos gestos de transgressão — como fumar às escondidas ou ouvir rap (com um cameo de Guè Pequeno) — fissuram a sua imagem granítica.
À sua volta move-se uma galeria de personagens tipicamente “sorrentinianas”: a amiga do liceu que guarda verdades incómodas, o misterioso “papa negro” que tenta influenciar as suas decisões, e o ministro da Justiça, seu antigo colega de escola.
Do ponto de vista estilístico, o filme apresenta a assinatura inconfundível de Sorrentino: realização elegante, ironia subtil e sequências visualmente memoráveis. Entre estas destacam-se a chegada em câmara lenta do Presidente português e a imagem sugestiva de um astronauta italiano que deixa escapar uma lágrima no espaço, suspensa na ausência de gravidade.
La Grazia é um filme que diverte e faz pensar. Através do percurso do seu protagonista — de “betão armado” a um homem em busca de leveza — Sorrentino convida o espectador a refletir sobre grandes dilemas éticos, o poder e o próprio significado da política.
Uma obra recomendada, capaz de unir profundidade e leveza com rara eficácia.
Texto escrito por Gianmaria Secci.
