The Amazing Spider-Man é o meu filme favorito, a razão de eu me interessar por cinema e, sem sombra de dúvida, o filme que já vi mais vezes. No meu sétimo ano, assistia-o e à sua sequela, no mínimo, semanalmente. O que é que posso dizer? O rapaz cromo ganha poderes e consegue a rapariga gira, a vida nunca fez tanto sentido. Numa nota mais séria, é um projeto ambicioso, repleto de profundidade e emoção… Acontece que nem toda a gente partilha a minha opinião, e este filme é universalmente impopular entre os fãs, o que me obriga a vir em sua defesa tantos anos mais tarde. Assim, venho trazer a minha tese de que O Fantástico Homem-Aranha é a melhor adaptação do icónico super-herói para o cinema.
A meu ver, uma das maiores críticas ao filme é, simultaneamente, uma das suas maiores valências. O argumento é que “este Homem-Aranha nasce do desejo de vingança”, ao que eu respondo: sim, e daí? A picada da aranha confere a Peter Parker superpoderes, não o transforma num super-herói. Passo a explicar: Peter é um adolescente com o coração no sítio certo, muitas vezes humilhado e desprezado. Como não tem forma de fazer nada quanto a isso, é natural que não surja a tentação de vingança. Ora, quando ganha os seus poderes, logicamente, quer humilhar o colega que o humilha regularmente e vingar a morte do tio, não compreendendo ainda o propósito dos seus poderes .Algo que me parece razoável na cabeça de um rapaz adolescente. Só quando resgata um rapaz (numa cena impressionante) e vê a emoção e gratidão na cara do pai é que percebe que as suas capacidades podem impactar a vida dos outros de uma forma positiva. Gosto da simbologia presente na cena em que Peter, imediatamente a seguir, contempla a sua máscara. É nesse momento que ecoam as últimas palavras sábias de Tio Ben; Peter tem capacidades, e usá-las para o bem não é uma mera escolha, é uma obrigação moral, uma responsabilidade. Nenhuma aranha consegue introduzir este pensamento na cabeça de alguém, nem, muito menos, uma página de banda desenhada; é algo que deve ser desenvolvido através de uma narrativa de ação-consequência, como é o caso. É uma analogia forte: Stan Lee, o criador da personagem, dizia que qualquer um pode e deve usar a máscara; basta usar os nossos talentos para nos pôr ao serviço dos outros, ajudar quem precisa de ser ajudado, defender aqueles que não se podem defender a si próprios. Num mundo em crescente conflito, é uma mensagem que traz esperança.
Outro atributo forte deste filme é o seu coração. Após a sua estreia como realizador em 500 Days of Summer, Marc Webb, inesperadamente, aceita como o seu segundo projeto nada mais nada menos do que um filme de um dos personagens mais icónicos da história ,um salto abismal. Uma coisa é certa, a alma e emoção presentes em 500 Days of Summer são canalizadas diretamente, pela primeira vez, para um filme deste género. E sim, muito por intermédio da relação de Peter e Gwen, mas não pelos motivos mais aparentes. A química astronómica entre Andrew Garfield e Emma Stone (que transcende até o ecrã), e o seu caráter adorável, são de importância inegável, mas não é aí que está o trunfo do sucesso deste romance. Este está na autenticidade e no quão relacionável é. As cenas são cruas, longas e propositadamente constrangedoras, refletindo na perfeição o que é um adolescente apaixonar-se pela primeira vez. Quando Peter, após conseguir um encontro com Gwen (já fora do seu campo de visão), anda pelo corredor radiante, ouvindo música, é como se, no momento, todos os problemas desaparecessem e nada mais importasse. Isto é uma sensação difícil de exprimir ou explicar, mas creio que se vai relacionar com muita gente. Outra razão para a personagem de Gwen resultar desta forma é que esta é mais do que o “love interest”, ao passo que é ativamente útil para o Homem-Aranha, contribuindo múltiplas vezes. Ao contrário de MJ (namorada da trilogia anterior) , que só serve para ser capturada, com o fim de aumentar as “stakes”, ou para destruir a sanidade mental de Peter. Este filme também beneficia de um excelente ator principal, Andrew Garfield. Garfield acerta tanto na essência de Peter Parker, o rapaz nerd pouco popular, mas com uma personalidade forte e dotada , como também encarna o espírito carismático e brincalhão do Homem-Aranha.
Diria que o final do filme também merece as suas flores, na medida em que captura e sumariza a humanidade da história. Desde já, dou a mão à palmatória e admito que a conclusão a que vou chegar não é da minha autoria. Visto que o objetivo é fazer a melhor defesa possível do filme, acho pertinente incluí-la. Na batalha final, o pai de Gwen (capitão da polícia), nos seus últimos momentos, faz Peter prometer que vai afastar Gwen da sua vida com o fim de a proteger. Afinal, Peter vai fazer inimigos, logo as pessoas que lhe são mais chegadas podem correr perigo. Numa primeira instância, Peter faz a escolha responsável e respeita esta promessa, proporcionando uma cena desoladora em que diz a Gwen que não pode estar com ela logo a seguir a esta perder o pai. Contudo, mesmo ao cair do pano, Peter reata a relação com Gwen, a escolha errada, talvez, mas humana. Isto serve para nos demonstrar que, como qualquer processo orgânico, o crescimento e o progresso não são lineares, têm pedras no caminho, envolvem algum retrocesso também; o que não nos torna melhores ou piores, faz-nos humanos. Realmente, é um filme que se foca mais no homem do que na aranha. E é com grande pesar no coração que admito que esta frase também não fui eu que me lembrei, inacreditável…
Bem, admito que já não tenho nada profundo e filosófico para discutir, por isso está na altura de o meu eu de 12 anos assumir o controlo. O Homem-Aranha neste filme é tão cool. As cenas de ação são mais fluidas do que nunca, a introdução da câmara na primeira pessoa, o fato, controverso, mas, a meu ver, espetacular… Uma curiosidade interessante é que, pela primeira vez, algumas cenas em que o Homem-Aranha balança com teias foram gravadas na vida real, utilizando efeitos práticos e cabos (ao oposto de CGI), e esse realismo é notável. E a cereja no topo do bolo, a música épica de fundo. Sempre que preciso de me animar, revisito a cena em que o Homem-Aranha balança entre as gruas, assim como a cena final, puros arrepios. E, por muito infantil que isto possa soar, é um filme de super-heróis; acho que não é o fim do mundo valorizar tanto a ação. Uma das razões da popularidade do Homem-Aranha é o quão épicos os seus poderes são no papel; nada melhor do que os trazer à vida de forma fenomenal.
Dito isto, mostrar este filme à minha irmã foi uma experiência agradável e gratificante, no sentido em que me deu a sensação de full circle; afinal, é para isto que vemos filmes, para partilhar as nossas experiências com os outros. Entretanto, já não sei se estou a tentar demonstrar o porquê disto ser o meu filme favorito ou comprovar que, objetivamente, é o melhor filme do Homem-Aranha; esta narrativa já está mais confusa do que a de O Fantástico Homem-Aranha 2, mas eu não tenho um orçamento de 230 milhões, deem-me um desconto. Gostava de aproveitar para referir que este texto já tinha uma versão final pronta a publicar; contudo, senti que não fazia justiça a quão este filme significa para mim; por essa razão, passou por um período de escritas e reescritas. Isto para dizer que, se chegaram até aqui, fico grato, pois nada me dá mais prazer do que partilhar este filme em particular com os outros. Faz-me genuína confusão como é que este filme não foi bem recebido pela audiência: percebe o personagem, injeta-lhe profundidade e emoção e dá-lhe um estilo impressionante. De qualquer forma, é o meu filme favorito e certamente que lhe devo o meu gosto por cinema.
Texto escrito por Francisco Empis.
