Edição especial de aniversário: o programa completo dos 30 anos do Queer Lisboa

Queer Lisboa 30: o programa completo

Notícias Queer Lisboa

De regresso aos habituais Cinema São Jorge e Cinemateca Portuguesa, entre os dias 18 e 26 de setembro, a edição especial de aniversário dos 30 anos do Queer Lisboa celebra a força do cinema e da identidade queer. Fortemente alicerçado na política de programação que o festival tem defendido ao longo das últimas três décadas, e atravessado por conceitos muito caros ao Queer Lisboa como são os da ‘memória’, ‘resistência’, ‘utopia’ ou ‘desejo’, o extenso programa de 2026 é aglutinador de um passado que idealizou formas de estar no mundo, de um presente que continua a traçar modos de olhar a realidade, e de um futuro que, mesmo em tempos adversos, o festival teima em imaginar esperançoso.

O ano de 2026 marca um presente de criação e produção particularmente expressivo para o cinema queer, mas a atual realidade política e social mostra-nos que não devemos dar as nossas batalhas e afirmações por conquistadas. O festival aposta assim num vibrante cinema cuja essência continua a ter muito para nos dizer e ensinar. Aos anúncios recentes das Sessões Especiais, Panorama, da nova Queer Family e Retrospetiva, juntam-se agora os filmes de abertura e encerramento, os filmes que compõem as cinco competições oficiais do festival, uma sessão com conversa, a presença de convidades oficiais e a divulgação das festas.

Depois de Passages e Peter Hujar’s Day, ambos exibidos no festival, o novo filme de Ira Sachs, The Man I Love (na imagem), será exibido na Noite de Abertura em anteestreia nacional. Uma obra que afirma Sachs como um autor incontornável que sabe olhar o legado do New Queer Cinema e trazê-lo para os dias de hoje. Com cenário na Nova Iorque dos anos 1980, em plena epidemia da sida, o filme conta com notáveis interpretações de Rami Malek, Rebecca Hall e Tom Sturridge. Nessa noite subirá ao palco o grupo Alarido –  Coro Feminista e LGBT, que cantará arranjos a cappella de canções e hinos pop, numa alusão aos valores da comunidade queer.

As honras da Noite de Encerramento cabem à animação Tangles, adaptação de Leah Nelson da novela gráfica “Tangles: A Story About Alzheimer’s, My Mother and Me” de Sarah Leavitt, vinda de Cannes. A estreia na realização de Nelson é um retrato comovente e inesperadamente bem-humorado de uma família a lidar com o impacto da doença de Alzheimer. Com um elenco de vozes impressionante – Julia Louis-Dreyfus, Abbi Jacobson, Bryan Cranston e Seth Rogen – e uma expressiva animação desenhada à mão, Tangles prepara-se agora para uma corrida à nomeação ao Óscar de melhor filme de animação.

Competição de Longas-Metragens propõe oito filmes que, em comum, partilham uma ideia de destino. Todos falam de percursos de aceitação ou de decisões de vida perante as quais as figuras centrais das histórias se confrontam. Após a revelação em 2018 com Daniel fait face, Marine Atlan constrói em La Gradiva um fresco sobre as intermitências da juventude. É a confirmação da diretora de fotografia de eleição de cineastas franceses como Jonathan Vinel, Caroline Poggi e Alexis Langlois, que levou para casa o Prémio de Melhor Filme da Semana da Crítica de Cannes, e é aqui apresentado em anteestreia nacional. Estreado na secção Orizzonti do Festival de Veneza, Estrany Riu, do catalão Jaume Claret Muxart, é mais uma história sobre descobrimentos e aprendizagens, sobre a juventude como fonte de futuro. Muxart estará presente em Lisboa. Com estreia mundial marcada para a Semana Internacional da Crítica de Veneza, o festival apresenta a estreia internacional de London, dos brasileiros Victor di Marco e Márcio Picoli, um filme destemido sobre viver-se com deficiência, protagonizado por di Marco. Os realizadores estarão presentes no festival. Mais cinco filmes integram a secção, a concurso pelo prémio de melhor filme, no valor de 1.000€, atribuído por um júri formado pela programadora e gestora cultural Kathleen Gomes, pela programadora de cinema Maria João Madeira e pelo ator Miguel Nunes.

Competição de Documentários, também composta por oito primeiras obras, compõe-se de territórios físicos e estéticos muito diversos. Corren las Liebres, de Lorena Ros, é um olhar franco sobre a acumulação de marginalidades, o desabrigo da população trans ex-presidiária, com cenário na periferia de Barcelona. A realizadora estará presente na sessão. Em estreia europeia, apresenta-se Public Access, de David Shadrack Smith, estreado em Sundance, uma apaixonada retrospetiva da história dos canais públicos da TV a cabo norte-americana, que acompanharam as convulsões das décadas de 70, 80 e 90, e Virages, estreado na secção paralela ACID, de Cannes, um retrato encenado de Johanna Schopfer e do seu velho Volkswagen Carocha que serve para um ajuste de contas com as feridas da transição, ao mesmo tempo em que reaviva a sua paixão pelo automobilismo. As realizadoras Céline Carridroit e Aline Sutre, bem como a protagonista e o produtor Aurélien Marsais, estarão presentes no festival. O júri é composto pela programadora de cinema Diana Cipriano, pelo jornalista Filipe Santa-Bárbara e por Luis Rosado, da equipa editorial da RTP2, atribuindo o prémio de melhor documentário, patrocinado pela RTP2, pela aquisição dos direitos de exibição do filme, no valor de 3.000€.

Competição Queer Art explora os limites das linguagens e géneros cinematográficos e dá destaque aos aspetos mais transgressivos da cultura queer. Entre os oito filmes apresentados contam-se duas estreias mundiais: Life Is about Losing Everything, dos irmãos alemães Benjamin e Stefan Ramírez Pérez, um fascinante e colorido filme híbrido que funciona como adaptação do muito particular universo da poetista e escritora feminista canadiana Lynn Crosbie; e Não Resta Nada, primeira longa-metragem de ficção do português André Godinho, que aqui propõe uma distopia especulativa de indivíduos queer em luta com o mundo. Godinho foi vencedor do prémio do público e do júri das curtas-metragens com Uma Rapariga Imaterial em 2022. Gustavo Vinagre e Ester Bergsmark, também anteriormente premiados no festival, regressam com A Paixão segundo G.H.B. e A Sweetness from Nowhere, respectivamente. O júri, constituído pelo realizador Leonardo Mouramateus, pela curadora Marta Mestre e pelo cineasta Matthias Müller, atribuirá o prémio de melhor filme, no valor de 1.000€.

Competição de Curtas-Metragens procura plasmar da forma mais ampla possível o que é isso de ser queer, com variadas propostas para a prática da liberdade e autodescoberta. De regresso ao festival estão as obras de Abdellah Taïa e Maryam Tafakory: em Cairo Streets, o realizador-escritor marroquino revisita filmagens de 2007, não sem pelo meio encontrar o mestre do cinema egípcio Youssef Chahine, enquanto, em Daria’s Night Flowers, excertos de cinema iraniano ilustram uma história de amor proibida. Je veux qu’on se souvienne de nous dá a conhecer o trabalho da fotógrafa norte-americana lésbica Donna Gottschalk, redescoberto pela escritora Hélène Giannecchini, ao passo que em Sanctuary, Sam Ashby viaja até à Califórnia no encalço do legado de Purusha Larkin, pioneiro monge, autor e guru sexual nos anos 80. Também encontramos na competição o cineasta e escultor libanês Ali Cherri, que apresenta La Sentinelle, e a realizadora portuguesa Rita Barbosa, responsável por A Hora da Estrela, comédia na qual uma influencer em apuros, interpretada por June João, enfrenta um gatinho com superpoderes. São, ao todo, 22 títulos, avaliados pela diretora de fotografia Aline Belfort, o realizador Caio Amado Soares, e a artista multidisciplinar Lou Loução, que atribuirá o prémio de melhor curta-metragem no valor de 500€, patrocinado pela Contranatura, e ainda um prémio logístico para usufruto do catálogo musical da AltContent.

Por último, na Competição In My Shorts (Curtas-Metragens de Escolas Europeias), que será avaliada pelo mesmo júri das curtas-metragens, figuram filmes do programa de mestrado DocNomads, das escolas DFFB (Berlim), ESCAC (Barcelona), The National Film & Television School (Londres), The Netherlands Film Academy, Le Fresnoy, HEAD (Genebra), Stockholm University of the Arts e de duas escolas de Bruxelas, o INSAS e a LUCA. São dez filmes a concurso, com destaque para For Those Who Love, Leave, and Love Again, de Paolo Laganà, colaborador de realizadores como Radu Jude e Corneliu Porumboiu, que apresenta um frágil estudo sobre a solidão e a pertença, explorando silêncios e medos segundo uma estudada psicologia narrativa; Āsheghetam, de Filmsaaz, animado em 3D, e que é uma ode à resistência ao opressivo imperialismo da guerra, procurando ilusões nos universos marginais; e o documentário autobiográfico Red Elephant, em que o paquistanês Iqran Rasheed reflete sobre um sistema burocrático que promete proteção à comunidade queer ao mesmo tempo que lhe exige um traumático preço a pagar pela mesma. Paolo Laganà, Filmsaaz e Iqran Rasheed estarão presentes no festival. O prémio para o melhor filme tem o valor de 500€.

Resistência Queer regressa pelo terceiro ano consecutivo. Depois de, nos passados dois anos, ter destacado histórias de resiliência e luta coletiva em territórios politicamente e socialmente conturbados, este ano, os quatro documentários trazem-nos retratos mais pessoais e de engajamento comunitário e associativo. Da mão da veterana Monika Treut, Cooking Up Democracy leva-nos a Taiwan, para olhar uma ilha vivida não como território ocupado e chantageado, mas serena na construção quotidiana de uma sociedade plural. Do Brasil, chegam-nos cinco testemunhos de pessoas trans com deficiência. Escutadas e observadas por uma equipa, também ela constituída por pessoas trans, Desejo de Viver (mutatis mutandis) mostra que até as singularidades que o mundo não está pronto a receber encontram o seu lugar. Por sua vez, Hélène trésore transnationale apresenta-nos uma personalidade ímpar do meio cultural francês: rejeitada pela família, prostituta, ativista nas frentes homossexuais, das trabalhadoras do sexo e do VIH/sida, Hélène Hazera foi também presença assídua no cinema experimental da década de 70. A realizadora Judith Abitbol e a produtora Paola Valentini estarão presentes no festival. Por fim, uma incursão aos campos da região da Nova Aquitânia, em França, com Pédale rurale, um “paraíso sem concessões” para quem escolheu viver perto da sua aldeia natal, de forma livre e discreta, cultivando a terra e fazendo tecelagem, mas também militando no ativismo. A sessão contará também com a presença do realizador Antoine Vazquez.

Destaque ainda para uma sessão de cinema com conversa. Apresentado em estreia internacional, o mais recente filme do francês Léolo Victor-Pujebet, La conscience politique, identifica e responde à violência das nossas instituições através da obra do filósofo Geoffroy de Lagasnerie, um dos mais celebrados filósofos e sociólogos da atualidade, com mais de 15 livros publicados, e cuja obra explora principalmente as interseções entre política, direito, arte e teoria crítica. O filme é um convite à luta, concebido em colaboração com Assa Traoré, Édouard Louis, Didier Eribon e outras pessoas aliadas, empenhadas em abrir caminho em direção à emancipação coletiva. A seguir à exibição do documentário, tem lugar uma conversa com o realizador e com Geoffroy de Lagasnerie com moderação de António Guerreiro, cronista do jornal Público e editor da revista Electra. A conversa abordará temas como a repressão, a família, a amizade, a democracia, a arte e as normas sexuais, entre outras questões centrais do pensamento de Lagasnerie, além do cinema como instrumento para a disseminação do conhecimento e do pensamento.

Panorama conta duas novas confirmações. Stop! That! Train!, realizada por Andy Shankman (HairsprayThe Wedding Planner), e protagonizada por RuPaul junto a uma troupe de drag queens do universo Drag Race, é uma das comédias mais aguardadas do ano. Outerlandslonga-metragem de estreia de Elena Oxman protagonizada por Asia Kate Dillon (Orange Is the New Black), é um delicado drama indie ambientado em São Francisco e um terno olhar aos efeitos opostos que a família pode ter no indivíduo.

A novíssima secção Queer Family responde a um desejo antigo do festival de programar filmes dedicados aos mais novos e aos seus familiares, propondo uma experiência intergeracional e afetiva através de cinema independente que apresenta tópicos de inclusão e identidade. Duas longas-metragens brasileiras compõem o Queer Family: Feito Pipa, de Allan Deberton, e Papaya, de Priscilla Kellen, em anteestreia nacional.

retrospetiva “Resgatar Futuros: o cinema queer vê-se ao espelho”, apresentada em parceria com a Cinemateca Portuguesa e desenhada para celebrar os 30 anos do Queer Lisboa, irá desdobrar-se este ano entre os dois espaços do festival numa série de oito double bills, propondo um conjunto de filmes que, no seu tempo, procuraram construir utopias e que foram referências em termos de uma ideia de comunidade. Revisitam-se obras de cineastas maiores do cinema queer, como Cheryl Dunye, James Bidgood, John Greyson, Kenneth Anger, Kim Longinotto, Marlon T. Riggs, Lana e Lilly Wachowski, Lisa Cholodenko, Sally Potter, Su Friedrich, Ventura Pons e Yonfan. Ao todo, são 19 títulos, muitos deles inéditos no festival e recentemente alvo de restauros que lhes devolvem o seu estatuto de obras canónicas.

São assinaláveis as qualidades estéticas e narrativas dos 94 filmes que fazem parte da 30ª. edição do Queer Lisboa, sintoma de uma absoluta maturidade do cinema queer. Com filmes oriundos de cinematografias tão díspares como as do México, Filipinas, Suécia, Eslovénia ou Irão, destaca-se a presença do cinema espanhol, africano (Nigéria, República Democrática do Congo, África do Sul), asiático (Paquistão, Vietname, China, Singapura, Hong Kong) e norte-americano, mas também português, com a estreia mundial de uma longa-metragem, a primeira apresentação de uma nova digitalização feita pela Cinemateca Portuguesa de um clássico do cinema underground nacional, e a estreia lisboeta de uma curta-metragem. Num universo de 118 cineastas, 51% são homens cisgénero, 36% mulheres cisgénero, 13% pessoas trans ou não-binárias, e 25% são cineastas BIPOC. Em Lisboa, para apresentar os seus filmes, estarão cineastas oriundos de Espanha, Alemanha, Brasil, França, Paquistão, Reino Unido, Itália, Portugal, Suíça, Irlanda, Grécia e Irão.

Como habitual, o Queer Lisboa acolherá uma série de festas para celebrar os filmes em comunidade, em espaços da noite queer lisboeta como o Purex Clube, o Drama Bar e o TR3S. Já o Ministerium acolherá a festa de abertura do festival, em colaboração com a mina.

O Queer Lisboa 30 tem um orçamento de 150.000,00€ e conta com os apoios da Câmara Municipal de Lisboa / Lisboa Cultura e do ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual, além de importantes parcerias como as estabelecidas com a FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o Institut Français du Portugal, o Goethe-Institut, as Embaixadas da Espanha, da Irlanda, dos Países Baixos, da Áustria e da Suíça, a Acción Cultural Española (AC/E), a German Films, a RTP2 e Antena 3, o Turismo de Lisboa e a Junta de Freguesia de Santo António; tendo como parceiros privados a Contranatura, a AltContent, a Absolut, a Filmin, a ASUS, a Gulato, as Pousadas da Juventude, ou o hotel The Late Birds Lisbon, entre vários outros.

Os bilhetes para o Queer Lisboa 30 estarão à venda a partir do dia 7 de setembro, na bilheteira do Cinema São Jorge e on-line na BOL.

Descobre o programa completo do Queer Lisboa 30 aqui.

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