A 27.ª Festa do Cinema Francês regressa a Lisboa de 1 a 11 de outubro para apresentar uma programação que atravessa geografias, épocas e linguagens, revelando a extraordinária diversidade do cinema francófono contemporâneo. De França ao Congo, do Canadá ao Gana, da Bégica a Marrocos, esta seleção reúne grandes autores consagrados e novas gerações de cineastas, cruzando dramas históricos e íntimos, thrillers, comédias, música, humor negro e propostas que desafiam as fronteiras entre géneros.
O filme de abertura, De Gaulle: Resistência, de Antonin Baudry, dá desde logo o mote a uma das linhas condutoras que percorre toda a programação desta edição: a resistência. Uma resistência que assume diferentes formas, escalas e significados.
A programação da secção Prémières que acolhe algumas das maiores antestreias portuguesas, percorre diferentes tempos da História e do imaginário: da França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial às desigualdades do presente; da Paris de Victor Hugo através de Jean Valjean pela mão de Vincent Lindon, a um futuro distópico em que uma decisão tomada num bunker nuclear pode determinar o destino da humanidade.
Resistir pode significar enfrentar a História quando tudo parece já decidido, como Charles de Gaulle ao partir para Londres para manter viva a ideia de uma França Livre. Pode significar desafiar, por dentro, uma máquina de Estado construída para perseguir e excluir, como em La Troisième Nuit de Daniel Auteuil. Pode assumir a forma de uma luta silenciosa e quotidiana: uma mãe que enfrenta obstáculos para garantir ao filho autista um lugar no mundo, como em Ulysse de Laetitia Masson; mulheres que encontram no cuidado e na solidariedade uma forma de reconstruir a própria autonomia, como em La Maison des Femmes de Mélissa Godet; ou ainda a resistência íntima de quem, perante a perda e os segredos do passado, procura a força para recomeçar, como Violette em A Breve Vida das Flores de Jean-Pierre Jeunet.
Entre a grande História e as histórias mais íntimas, entre o passado, o presente e o futuro, a resistência — política, coletiva, social ou íntima — surge, de forma mais ou menos explícita, como um tema transversal desta edição.
A programação é também marcada pela presença e pelo regresso de alguns dos nomes mais singulares do cinema contemporâneo. De Asghar Farhadi, vencedor de dois Óscares e do Grande Prémio de Cannes, chega Histórias paralelas, apresentado em Competição na última edição do festival, um sofisticado jogo de suspense e humor, com referências assumidas a Hitchcock e De Palma. Jean-Pierre Jeunet, autor de O Fabuloso Destino de Amélie, regressa ao grande ecrã com A Breve Vida das Flores, o seu primeiro filme desde 2018; a Festa assinala ainda este regresso recuperando Delicatessen, a extraordinária primeira longa-metragem que Jeunet realizou em parceria com Marc Caro. E Quentin Dupieux, um dos mais irreverentes autores do cinema francês atual, traz Full Phil, uma comédia negra protagonizada por Woody Harrelson e Kristen Stewart, onde o absurdo, o humor deadpan e o body horror coexistem sem regras.
Ao lado destes cineastas, a Festa descobre novas vozes e diferentes formas de olhar para o mundo, de Nathan Ambrosioni a Alexandre Smia e Stéphane Demoustier. Um cinema que tanto revisita a História como inventa futuros, que pode partir de um acontecimento político ou de um drama familiar, de um grande romance literário ou de uma situação absurda, e continuar a demonstrar-se um cinema plural, inquieto e em permanente reinvenção.
Rir à Grande e à Francesa: rir de tudo, até do próprio cinema
Se há uma tradição em que o cinema francês se sente particularmente à vontade, é a de olhar para o mundo com ironia — e, muitas vezes, começar por rir de si próprio. Rir à Grande e à Francesa reúne este ano uma seleção de comédias que atravessa o absurdo, a sátira, o humor negro, o desejo, a vida de casal e os bastidores do espetáculo, num programa onde rir é também uma forma de olhar para as contradições do nosso tempo.
O grande destaque é De la Comédie-Française, de Bertrand Usclat e Martin Darondeau, uma das comédias francesas mais populares do ano, já com mais de um milhão de espetadores em França. O filme leva o público aos bastidores da mais prestigiada instituição teatral francesa, La Comédie-Française, numa sucessão vertiginosa de egos, imprevistos e desastres que transforma uma estreia teatral numa verdadeira corrida contra o tempo. Um retrato divertido dos códigos e das vaidades do mundo do espetáculo, mas também uma celebração da própria arte de representar.
O teatro volta a ser cenário em L’Objet du délit, de Agnès Jaoui, que acompanha os ensaios de As Bodas de Fígaro. O filme transforma o espaço teatral num microcosmo de tensões geracionais, convicções e posições ideológicas, numa comédia dramática sobre conflito, coexistência e a difícil procura de um terreno comum. Já em Ni vue, ni connue, de Marc Fitoussi, filme que encerra a 27.ª Festa do Cinema Francês, o cinema torna-se, literalmente, matéria de comédia. Isabelle Huppert, Sandrine Kiberlain, Ana Girardot, Diane Kruger e Emmanuelle Bercot integram um jogo meta-cinematográfico que brinca com a imagem dos atores, o culto das estrelas e as ilusões da indústria.
O desejo e a sexualidade são outro dos territórios onde esta programação encontra o humor. Pour le plaisir, de Reem Kherici, transforma a descoberta do prazer feminino numa comédia luminosa e popular, protagonizada por Alexandra Lamy e François Cluzet. Já Folichonneries, do canadiano Eric K. Boulianne, aborda com uma liberdade pouco habitual a experiência de um casal que decide abrir a sua relação depois de 16 anos juntos — entre desejos, inseguranças, situações comicamente desajeitadas numa tentativa, nem sempre simples, de reinventar a intimidade.
Há ainda espaço para o humor mais absurdo e inquietante. Em Alter Ego, Laurent Lafitte interpreta magistralmente dois papéis, a de um homem e da versão melhorada de si mesmo, numa comédia que começa no disparate e mergulha progressivamente no humor negro. E porque o humor também permite viajar para lá do quotidiano, C’était mieux demain, de Vinciane Millereau, imagina um casal dos anos 1950 confrontado com o mundo de 2024, numa sátira sobre as transformações sociais e as relações de género. Em Marsupilami, de Philippe Lacheau, a viagem é ainda mais literal e extravagante: uma aventura tropical com animais exóticos que se tornou um dos grandes fenómenos de bilheteira do cinema francês de 2026, ultrapassando os seis milhões de espetadores em França.
Do palco ao cinema, da sexualidade ao absurdo, das viagens no tempo às aventuras em terras exóticas, Rir à Grande e à Francesa celebra uma comédia livre, irreverente e sem medo de rir de tudo — incluindo de si própria.
Bataclan: Os que Viveram estreia na Festa do Cinema Francês em parceria com os Canais TVCine
Entre os acontecimentos mais marcantes da programação está também Bataclan: Os que Viveram, de Jean-Xavier de Lestrade e Antoine Lacomblez, uma série de oito episódios que revisita os atentados de 13 de novembro de 2015 a partir da experiência de sete sobreviventes do Bataclan.
Criada no âmbito dos dez anos dos atentados e construída a partir dos testemunhos dos próprios sobreviventes, a série afasta-se da reconstituição do acontecimento para se concentrar no que vem depois: a reconstrução das vidas, os laços criados entre aqueles que partilharam a experiência e a difícil passagem de sobrevivente a pessoa novamente capaz de viver.
Um dos grandes projetos de ficção da France Télévisions em torno de um dos acontecimentos que mais abalou a França nas últimas décadas, Bataclan: Os que Viveram teve forte impacto mediático e distingue-se pela forma contida e profundamente humana como aborda a memória e o trauma. O público da Festa do Cinema Francês poderá assistir, em exclusivo, aos dois primeiros episódios da série, que estreia a 12 de outubro no canal TVCine Edition e no serviço de streaming TVCine+.
Eventos paralelos: Cinema ao ar livre com o Black Cat Cinema e uma Festa de Abertura na Casa Capitão
O Black Cat Cinema e a Festa do Cinema Francês juntam-se para uma sessão de cinema ao ar livre, a 26 de setembro, na Igreja da Graça, em Lisboa, com a exibição do filme De Bicicleta, de Mathias Mlekuz, vencedor do Prémio do Público da Festa do Cinema Francês em 2025.
Esta comédia parte da história verídica de dois amigos de longa data, que, após a morte trágica do filho do realizador, partem de bicicleta numa aventura com ecos de western e de fábula existencial, que é também um ato de memória.
O filme começa às 20h30 e será precedido por música ao vivo, street food e bebidas ao pôr-do-sol a partir das 19h00.
A Festa do Cinema Francês acontece também fora do ecrã, com uma Festa de Abertura, na noite de sábado, 3 de outubro, na Casa Capitão, em Lisboa. Com a música electrónica francesa como mote, a noite propõe um encontro entre cinema, música e cultura contemporânea, prolongando o universo da Festa para a pista de dança. Um momento de celebração que reúne público, convidados e profissionais para dar início à 27.ª edição num registo mais descontraído e festivo.
Além de Lisboa, a Festa vai realizar-se em vários municípios portugueses, como: Almada (7, 12, 13, 14, 21 e 28 de outubro), Porto e Vila Nova de Gaia (9 a 14 de outubro), Tavira (13 de outubro), Lagos (13 a 16 de outubro), Coimbra (14 a 18 de outubro), Cascais (21 a 25 de outubro), Braga (27, 28 e 29 de outubro), Beja (4 e 5 de novembro), Leiria (17 e 18 novembro), Setúbal (19 a 22 de novembro), Figueira da Foz (20 e 21 novembro), Santa Maria da Feira (10, 12 e 26 novembro) e Faro (22, 23, 29 e 30 outubro).

