No único festival de cinema em Portugal inteiramente dedicado ao documentário sobre música, são apresentados, na 5.ª edição, 23 filmes, várias estreias nacionais e uma Secção Competitiva decidida pelo público. Butthole Surfers, Sun Ra, Jason Molina, Hermeto Pascoal, Mogwai, Erik Satie, Amadou & Mariam e Vítor Rua estão entre as figuras retratadas.
De 11 a 19 de setembro, o Sonica Ekrano – Festival de Documentário Musical regressa ao Barreiro para a sua 5.ª edição. Pela primeira vez, o festival tem como principal espaço o Teatro Municipal do Barreiro, casa da Companhia Arteviva, apresentando 22 filmes ao longo de nove dias, entre longas, médias e curtas-metragens, várias delas em estreia nacional.
O programa atravessa diferentes épocas, geografias e formas de criação, reunindo nomes como Butthole Surfers, Sun Ra, Jason Molina, Hermeto Pascoal, Mogwai, Erik Satie, Amadou & Mariam, Witch Club Satan e Vítor Rua, mas também comunidades e cenas musicais da Papua Ocidental, Guiné-Bissau, Gana, Índia, Irlanda, Eslovénia, Sardenha ou Istambul.
Os filmes desta edição partem de uma ideia que atravessa grande parte da programação: a música nunca existe sozinha. Nasce de territórios, comunidades e formas particulares de escutar o mundo, surgindo nestas obras como memória, ritual, resistência, identidade e encontro. Mais do que biografias de músicos ou histórias de géneros musicais, são filmes que permitem compreender também os lugares, as pessoas e as circunstâncias sociais, políticas e culturais em que a música é criada.
Seis estreias nacionais em competição
A Secção Competitiva, cujo vencedor será novamente escolhido pelo voto do público, reúne seis longas-metragens, todas em estreia portuguesa.
The Best Summer, de Tamra Davis, recupera imagens inéditas filmadas em 1995 durante uma digressão de Beastie Boys, Sonic Youth, Foo Fighters, Pavement, Rancid, The Amps e Bikini Kill pela Austrália e Sudeste Asiático. Em You Fuckers Figure It Out: A Jason Molina Story, Tommy Nickoloff regressa às origens do líder de Songs: Ohia e Magnolia Electric Co. através das memórias de familiares, amigos e primeiros companheiros musicais.
The Magic City – Birmingham According to Sun Ra, de Pablo Guarise e Guillaume Maupin, procura as origens de Sun Ra na Birmingham segregada do Alabama, enquanto Sound Dreams of Istanbul, do violoncelista e improvisador Anıl Eraslan, constrói através da música e dos sonhos um retrato sensorial da cidade turca.
Completam a competição Celtic Utopia, de Dennis Harvey e Lars Lovén, que parte da recuperação contemporânea da música tradicional irlandesa para construir um retrato político e social da Irlanda do século XX, e HEX, de Maja Holland, que acompanha as três integrantes da banda Witch Club Satan no processo de se tornarem simultaneamente músicas e “bruxas” e afirmarem uma voz feminista no universo do black metal.
De Hermeto Pascoal e Amadou & Mariam às histórias da Guiné-Bissau e do punk esloveno
As Seleções Especiais abrem, a 11 de setembro, com Butthole Surfers: The Hole Truth and Nothing Butt, de Tom Stern, mergulho no percurso caótico e radical de uma das bandas mais iconoclastas do rock norte-americano.
Entre os restantes destaques encontram-se Nteregu, de Manuel Loureiro e Roger Mor, dedicado à história e diversidade musical da Guiné-Bissau; Punk Under Communist Regime, de Andrej Kosak, sobre a emergência e repressão da cena punk de Ljubljana entre 1977 e 1985; e O Menino d’Olho D’Água, de Lírio Ferreira e Carolina Sá, que regressa às origens de Hermeto Pascoal e inclui imagens de um dos últimos concertos do incomparável músico brasileiro.
The Blind Couple from Mali, de Ryan Marley, acompanha a história pessoal e artística de Amadou Bagayoko e Mariam Doumbia, enquanto Complô, de João Miller Guerra, retrata o rapper português Bruno “Ghoya” Furtado e cruza música, identidade, prisão, cidadania e pertença. Esta última sessão será precedida pela apresentação do livro Conversas sobre Rap Crioulo em Portugal, editado pela Urutau.
O encerramento, a 19 de setembro, fica a cargo de Mogwai: If the Stars Had a Sound, de Antony Crook, retrato da banda escocesa construído entre arquivo, concertos, amizade e o processo de criação do álbum As the Love Continues durante a pandemia.
Curtas e médias-metragens ganham espaço
Depois da introdução de uma secção dedicada às curtas-metragens em 2025, o Sonica Ekrano aprofunda este ano esse espaço através de quatro sessões.
O programa inclui Le Mystère Satie, retrato de Erik Satie realizado por Bastien Loukia e apresentado pela primeira vez em Portugal; Rua (Isto não é um filme, é um cometa), de Nuno Calado e Bigos Campaniço, dedicado ao percurso musical de Vítor Rua; e Space Festival – Um documentário experimental e improvisado, de Nuno Alves, sobre o festival itinerante que leva outras músicas a várias localidades do centro e norte de Portugal.
As restantes sessões, todas feitas de estreias absolutas no país, atravessam geografias e práticas particularmente diversas: os funerais acompanhados pelo músico ganês Stevo Atambire em Long Live the Dead!; o canto polifónico da Sardenha em Il Soffio dell’Anima; a transformação eletrónica da tradição Wisisi na Papua Ocidental em Wisisi Nit Meke; o encontro entre cultura sound system, espiritualidade indiana e filosofia Rastafari em Sound System Sanskriti; o restauro do histórico sintetizador Buchla 100, em Null Adjustments; e a relação de uma guia japonesa em Barcelona com a música e a antiga casa de Frederic Mompou em Ressonàncies (d’una música callada).
Com esta 5.ª edição, o Sonica Ekrano continua a afirmar o documentário sobre música como um território de descoberta, privilegiando filmes nunca ou raramente vistos em Portugal e procurando histórias que permanecem fora dos circuitos de maior visibilidade.
O programa completo, horários, passe geral e bilhetes individuais estão disponíveis em sonicaekrano.pt.
O Sonica Ekrano é uma organização da OUT.RA – Associação Cultural e integra a rede europeia Music Film Festival Network.

