O género ‘Drama’, em Cinema, deverá ser um dos géneros mais utilizados para categorizar um filme, existindo vários sub-géneros associados, e com diversas camadas, digamos assim, de profundidade e naquilo a que podemos associar a algo como dramático em si, que nos faça comover ou sentir uma imensa tristeza ou lamentação. Dito isto, a minha experiência ao ver o filme “Close” (vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes em 2022, e agora disponível em Portugal através da plataforma de streaming FILMIN), resume-se ao que em linguagem corrente chamamos de um ‘dramalhão’, ou seja, um Drama com D maiúsculo.
Em nenhum momento em “Close” é dada a oportunidade ao público de ter um momento de descontração ou de relief, sendo esta obra um drama em toda a linha, do primeiro ao último minuto, sendo muito difícil a pessoa não se deixar levar por toda a narrativa criada, deixando-se envolver em toda a tristeza e desespero que a história cria ao seu redor.
O que mais me surpreendeu neste filme foi a sua capacidade de criar diversos momentos de extrema delicadeza, levando sempre cada cena a um conflito de uma forma muito bem pensada, sendo que os diálogos têm, em muitas ocasiões, diversos significados, e aplicam-se a mais do que uma personagem, não estando limitados à personagem que os transmite. A delicadeza na construção dos diálogos e na sua cadência é, sem dúvida, o ponto mais forte e único com que o filme presenteia o público, para além de conseguir incluir várias camadas e temas numa mesma história, sem com isso sobrecarregar o espectador ou criar linhas narrativas secundárias menos interessantes ou que não levem a lado nenhum, como muitas vezes acontece.
Depois temos de falar das interpretações (onde neste tipo de filmes tão centrados na narrativa e diálogos, são sempre um dos seus principais pilares), que apresentam um nível elevadíssimo em todo o elenco, mas tenho de destacar o jovem actor Eden Dambrine, que teve aqui a sua estreia enquanto actor, e que estreia foi esta. Será raro encontrarmos interpretações tão boas e marcantes como esta, muito menos de um actor tão jovem como este. A maturidade e envolvência com a personagem e as situações onde ela se insere são de louvar, e o trabalho de Eden Dambrine não pode passar despercebido.
Quanto ao restante, é uma obra tecnicamente eficaz, visualmente bem realizada e editada, não sendo no seu geral algo de revolucionário, e confesso que mesmo em relação ao seu argumento, está muito em linha com filmes como “Manchester by the Sea” ou “Rabbit Hole“, mas consegue transmitir uma delicadeza que achei realmente única, assim como outras camadas narrativas, o que distingue assim este filme de outros que vão beber à mesma sopa temática.
Não é assim de admirar que esta obra realizada por Lukas Dhont tenha também sido nomeada aos Óscares na categoria de Melhor Filme Internacional, em representação da Bélgica, e, a meu ver, mereceria ter alcançado um maior impacto, principalmente nas categorias dedicadas aos actores. “Close” pode agora ser visto na plataforma FILMIN.
Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por André Marques.
