Terça-feira, 16 de setembro de 2025. Pelas onze da manhã na Embaixada de França em Lisboa, ocorreu a apresentação da mais recente edição da Festa do Cinema Francês. A organização ficou a cargo da Associação Il Sorpasso, representada na conferência pela pessoa de Stefano Savio.
A edição do presente ano traz novas secções, novas parcerias, mas acima de tudo novas ambições. Savio comunicou o desejo de criar um evento dinâmico, amplo e mais prestigiante. Em suma, um festival que consiga levar a celebração da filmografia francófona a mais públicos, de norte a sul do país. Com uma imagem gráfica renovada, pretendeu-se, com este aspecto, evidenciar um festival dotado de uma nova energia.
Concomitantemente, procurou-se reforçar o desejo de continuar a celebrar o grande património do cinema clássico francês das mais variadas formas. Destacou-se a retrospectiva “Alain Delon, a virtude do silêncio” organizada em conjunto com a Cinemateca Portuguesa.
A programação do festival pretende revelar a vitalidade e a pluralidade do cinema francófono. Com base nesse ideal, passo a destacar quatro filmes desta edição:

Le Rendez-Vous de l’étè (2025) – Realização: Valentine Cadic
A minha primeira sugestão reporta-se ao filme Le Rendez-Vous de l’étè, a primeira longa-metragem da atriz francesa Valentine Cadic, que está inserida na secção competitiva do festival. A ação deste filme ocorre em agosto de 2024 em Paris, durante os Jogos Olímpicos. A protagonista do filme Blandine (Blandine Madec), uma jovem de 30 anos vinda da Normandia, chega à capital francesa para assistir às competições de natação, mas acima de tudo para voltar a conectar-se com a meia-irmã Julie (India Hair) e conhecer a sua sobrinha. Avassalada pelo ritmo frenético de uma cidade completamente transformada pelo evento, Blandine navega por ruas estranhas, mergulha em relações inesperadas e cria conexões imprevistas; vivenciando assim um Verão de redescoberta total.
Cadic, que também escreveu o argumento do filme com Mariette Désert, convida o espectador a abrandar e a admirar a viagem pessoal de Blandine. As primeiras imagens e vídeos promocionais, imediatamente evocam os filmes de Éric Rohmer, mais especificamente os que seguem jovens de caráter indefinido, em busca de algo e/ou de alguém. Facilmente conseguimos imaginar as personagens de filmes como Conto de Verão (1997) ou 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle (1987), a fazer parte de uma das aventuras parisienses de Blandine. Olhando para outros cineastas, contemporâneos de Cadic, e seguindo a mesma lógica, os protagonistas do filme À l’abordage (2020) também seriam facilmente amigos e cúmplices de Blandine.
Por último, creio que é imperativo mencionar a duração deste filme. Com apenas 77 minutos de duração, é uma das longas-metragens mais curtas no festival. Citando Roger Ebert: “No good movie is too long, just as no bad movie is short enough”.

La cache (2025) – Realização: Lionel Baier
A proposta seguinte está presente na secção “Rir à grande e à francesa”. Trata-se da mais recente obra do realizador suíço Lionel Baier, La Cache. Baseada na autobiografia homónima de Christophe Boltanski, a acção decorre em Paris, durante o mítico Maio de 1968. O enredo relata a história de um rapaz de nove anos que passa a residir com os avós, numa estadia que se previa temporária, mas que afinal se manifesta sem fim à vista. Na residência dos avós, co-habitam outros familiares, alguns dos quais particularmente irreverentes e excêntricos. Esta família judia perante o turbilhão do Maio de ‘68, pensou ter encontrado um porto seguro numa cidade em ebulição. Mas tudo se altera, com a chegada inesperada de um ilustre convidado, em busca de refúgio. A chegada deste novo residente, irá pouco a pouco alterar as dinâmicas nesta família. Emergem assim chagas e segredos da história familiar, que passam a ser revelados.
O elenco deste filme é composto por Dominique Reymond, William Lebghil, Aurélien Gabrielli, Liliane Rovèree e Michel Blanc. Este foi o último filme em que Blanc esteve envolvido. O ícone da comédia francesa, faleceu em outubro do ano passado aos 72 anos, vítima de um ataque cardíaco. Blanc nasceu em 1952, alcançando fama e popularidade imensas com a trupe de comédia Le Splendid. Com o mesmo grupo participou no clássico Barracas na Praia (1978). Cedo criou uma persona cómica no grande ecrã, interpretando várias vezes homens em crise, bastante exasperantes, mas ainda assim cativantes.
Eventualmente aventurou-se em papéis mais dramáticos em filmes como Traje de Noite (1986) de Bertrand Blier ou Monsieur Hire (1989) de Patrice Leconte. Fora da esfera do cinema francês, atuou em filmes como Os Livros de Próspero (1991) de Peter Greenaway e O Monstro (1994), de Roberto Benigni. Enquanto realizador dirigiu diversas comédias, como Grosse Fatigue (1994) e Amor Sem Tréguas (2002).

Les habitants (2025) – Realização: Maureen Fazendeiro
A terceira sugestão leva-nos a Périgny-sur-Yerres, uma cidade-dormitório nos subúrbios de Paris, através do documentário Les habitants presente na secção “Sessões especiais”. Da autoria da realizadora luso-francesa Maureen Fazendeiro, este filme foca-se na chegada de uma comunidade de etnia cigana, à cidade em questão em outubro de 2017. A comunidade montou um acampamento num terreno abandonado, uma ocorrência que gerou ondas de xenofobia e divisões na comunidade local. Em julho de 2018, o acampamento foi desmantelado pelas autoridades municipais e consequentemente os seus habitantes foram expulsos.
Antes disso, durante dez meses, um grupo de mulheres, no qual se insere a mãe da realizadora, aproximou-se dos novos vizinhos e forneceu-lhes o apoio que o Estado lhes negou. A partir das cartas que a sua mãe lhe escreveu, durante este período, Maureen Fazendeiro criou um documentário no qual relata os atos de solidariedade deste grupo de mulheres locais e a proximidade que se estabeleceu entre as mesmas e os habitantes temporários.
Nos últimos anos Fazendeiro tem colaborado frequentemente com o cineasta Miguel Gomes, assumindo as funções de co-realizadora, argumentista e directora de casting em diferentes filmes do autor português. Simultaneamente continuou a assinar filmes a solo, levando inclusive este ano ao Festival de Locarno a longa-metragem As Estações (2025).
Em entrevista para a RFI (Radio France International) Fazendeiro declarou que “(…) quis fazer um filme sobre a negação do mal-estar, da pobreza – tudo aquilo que a nossa sociedade não consegue integrar, acolher e acaba por marginalizar”.

Papillon (2024) – Realização: Florence Miailhe
E do documentário passo à animação com a última proposta, presente na secção dedicada às curtas-metragens. Em Papillon a acção decorre em mar aberto, enquanto a personagem principal invoca as suas memórias, todas relacionadas com a água, sejam elas alegres, gloriosas ou traumáticas. Este homem que nada sem cessar, vai em busca de uma meta que ele, e só ele, consegue visualizar.
O filme é da autoria de Florence Miailhe, uma das vozes mais distintas a trabalhar no cinema de animação francês. A cineasta francesa tem trabalhado em curtas e longas-metragens desde 1991. A criação dos seus filmes envolve um processo de sobreposição, envolvendo a junção de tinta, areia e pastel, que executa diretamente debaixo da câmara. Nesta sua mais recente obra, a realizadora, partindo da vida do nadador olímpico Alfred Nakache, demonstra novamente o potencial emocional e criativo do seu cinema e do cinema de animação no geral.
Texto escrito por M. Filipe.
