Segundo uma estatística única e exclusivamente baseada na minha cabeça, nos filmes 80% dos vilões, ou melhor, antagonistas, nascem da frustração de o mundo recompensar os outros e não a eles. Loki, Scar, o panda cor-de-rosa do Toy Story 3… Eu juro que o meu alcance vai para lá da Marvel e da Disney, mas creio que estes exemplos são universais e vão fazer sentido para mais gente. Ora, após introspeção, chegamos à conclusão de que não se trata de um sentimento assim tão alheio. (Utilizei o plural na esperança de que isto seja algo universal e não um distúrbio qualquer meu). Portanto, podem considerar este artigo como um guia para não nos tornarmos num super-vilão, ou, como eu prefiro, uma ferramenta de ajuda a encontrar propósito. E Commodus em Gladiator!!! Outro exemplo de ciúmes, eu disse que tinha alcance cinematográfico.
Quantas vezes não nos perguntamos por que eles e não eu? A frustração, ou até mesmo a inveja de ver quem nos rodeia a alcançar algo ou a progredir, enquanto ficamos no mesmo sítio… Não que eu mereça, mas certamente que os outros não merecem assim tão mais do que eu. Não são ciúmes do que lhes acontece propriamente, mas sim do facto de algo lhes acontecer. (Mais uma vez, espero que isto seja relacionável para alguém, caso contrário não passa de uma admissão de insanidade). Bem, focando no mais óbvio, a solução começa por relativizar. É tão fácil olhar para o que os outros têm e nós não temos, que nos esquecemos de ver o outro lado; com certeza que também existe alguém que ansiava ter algo que nós temos, por mais simples ou básico que seja, algo até que, provavelmente, damos como garantido. Ou seja, esta frustração tem um efeito negativo para mim, porque não valorizo o que tenho, e para os outros, visto que negligencio os seus problemas.
De seguida, sou da opinião de que vivemos numa lógica de livre-arbítrio. Nada está determinado e, embora não controlemos o nosso futuro, o que nos acontece, em grande parte, é fruto das nossas decisões, comportamento e ações. Isto para dizer que, ao invés de ficarmos sentados com rancor à espera do grande evento canónico, que, de um momento para o outro, irá dar sentido à nossa vida,devemos encontrar propósito nos momentos mais sóbrios e comuns, pois é a junção, ou o acumular, desses que, potencialmente, nos leva a algo especial. Considero o filme Magnolia (1999) um bom exemplo. A história segue uma dezena de indivíduos que, por culpa própria ou não, se encontram em situações difíceis e continuam sucessivamente a fazer a má escolha, convencidos de que o que veio antes irá sempre marcar o futuro. A mensagem do filme vem na forma de uma música,as dificuldades, injustiças, infelicidades, os infortúnios, erros e desgostos, nada disto vai melhorar “until you wise up” (refrão da música). Não somos o personagem principal que atinge o fundo do poço e, no terceiro ato, é recompensado pelo guionista e acaba com a rapariga bonita. A mudança tem que partir de nós.
Tudo isto soa bonito no papel, mas afinal, na prática, o que é isto de encontrar propósito nas coisas simples? Passa por valorizar as nossas relações, por exemplo. Por vezes, achamos que não temos nada, quando nessas relações já temos quase tudo. Considero que as pequenas conquistas também desempenham um papel importante; a sensação de receber a recompensa por algo a que nos esforçámos não deve ser menosprezada, por mais pequena que seja a conquista (Uma boa nota num teste por exemplo). Aliás, porque é aí que está o nosso combustível para continuar. Todavia, acho que o ponto central está na compaixão. Em vez de invejar o outro, apoiar o outro, cultivar a entreajuda e não a comparação. Se considerarmos o mal como a frustração que referi no início, esta citação de Gandalf em The Hobbit: An Unexpected Journey resume a minha tese na perfeição: “Saruman believes it is only great power that can hold evil in check, but that is not what I have found. I found it is the small everyday deeds of ordinary folk that keep the darkness at bay. Small acts of kindness and love”. Claro que somos seres humanos (não somos perfeitos), logo nem sempre vamos fazer a escolha correta; contudo, se utilizarmos esta forma de pensar como bússola, temos a certeza de que estamos a rumar na direção certa. Gosto de uma frase presente na música “Fragilidade”, da autoria de Padre Duarte Rosado: “Não queiras a perfeição, escolhe antes a bondade”.
A objeção ao que acabei de dizer parece-me bastante óbvia: “Que visão utópica, isto não é a Alice no País das Maravilhas”. Talvez, mas a bondade a que me refiro no parágrafo anterior nem sempre se encontra na forma de um elogio ou de um sorriso; também envolve confronto. Na semana passada, apareceu-me um vídeo no TikTok em que alguém referia que não devíamos perdoar más ações só porque essa pessoa não tinha culpa de ser formada ou educada de certa forma. A questão do perdão já abordei em textos anteriores, não vou entrar por aí. Contudo, a bondade aqui entra em jogo na forma de intervenção. De facto, não se deve desresponsabilizar alguém com base na sua origem, senão entraríamos numa regressão infinita, em que, simultaneamente, todos somos culpados, mas a culpa não é de ninguém. A questão é que tanto devem as pessoas ser responsabilizadas como nós também devemos ser responsáveis por chamar a atenção, ensinar. Às vezes não são interações fáceis, especialmente quando é alguém que nos é querido. É preciso desconstruir conceitos e, por vezes, consequentemente, sacrificar parte da relação que temos, mediante a reação da pessoa. Mas uma coisa é certa: as grandes figuras do seu tempo foram aquelas que não tiveram medo de desafiar aqueles de quem mais gostam quando era preciso. Cito novamente um personagem sábio de barba e cabelos cinzentos e longos, desta vez Albus Dumbledore: “It takes a great deal of bravery to stand up to our enemies, but a great deal more to stand up to our friends”.
Para recapitular, a revolta que sentimos em relação ao sucesso dos outros é natural (espero); a solução passa por tomar consciência de que a mudança só depende de nós e deve focar-se em encontrar propósito nestes três pilares: relações, valorizar as pequenas conquistas e compaixão. A compaixão não é só sorrisos e abraços, também exige “sujar” as mãos, se necessário. Isto não é de modo nenhum imperativo ou inerentemente verdadeiro; é apenas o que tento aplicar à minha vida. Se quiserem tentar pôr em prática e der resultado, já sabem a quem têm de agradecer por não serem o próximo super-vilão.
Texto escrito por Francisco Empis.
