O formato “mini-série” entusiasma-me, gosto sobretudo que haja um encadeamento condensado; a encapsular um ou vários eventos, num universo rico, mas focado. Não se espremem relações até à última, não há uma decadência desnecessária nem se estabelecem pontes forçadas para dar vida a um enredo em fase terminal.
O desafio-mor é agarrar o espetador numa história verídica, conhecida do público inglês que viveu de perto o drama de Ann Ming através da década de noventa, a apanhar as primeiras faíscas dos anos 2000. Desafio superado graças a duas frentes que sustentam bem o binge dos quatro episódios a eito:
– Um acting experiente e bem-sucedido, sumarento e pleno de emoção.
– Um argumento orientado para a sucessão de eventos com uma matriz segura e dedicada à cronologia dos factos no seu crescendo de intensidade e na exploração da dúvida de quem desconhecia o enredo e, ainda assim, conteve o ímpeto de ir procurar o seu desfecho.
Há que destacar uma fita que sabe equilibrar-se entre a escuridão e a luz sem repetir contrastes ou ir a lugares óbvios. Há The Crown no currículo e isso nota-se através da abordagem de eventos verídicos com noções de envelhecimento em caracterização adequada e troca de atores, assim como através de um retrato social com profundidade. Captam-se as ruas sossegadas de uma província inglesa e o passar do tempo numa tragédia que alimenta tabloides e desorienta uma nação.
Minissérie ‘Contra a Lei’ disponível na Filmin a partir de 30 de setembro. Texto de Manuel Seatra.
