Crítica: Pecadores - duas estrelas por Jasmim Bettencourt.

Pecadores – Um terror acorrentado pelo mainstream

2 estrelas Críticas

O mito do vampiro é um dos que tem mais fascinado a sociedade moderna, tendo sidos produzidos vários filmes sobre vampiros nos últimos 10 anos. Usado como metáfora de uma classe dominante opressiva ou tabu sexual, entre outros significados que este mito pode incorporar, em Pecadores este mito incorpora de forma inovadora tensões de natureza racial dentro dos EUA. Ryan Coogler utiliza a figura do vampiro de forma criativa para abordar temas como identidade étnica e apropriação cultural. Seguindo a história de Sammie Moore, um jovem talentoso e ambicioso, e os seus primos Smoke e Smack na noite de abertura do seu bar em que os negros podem relaxar no Sul opressivo, somos puxados para o que se torna numa jornada de terror e sangue, com bastante humor à mistura e uma banda sonora hipnótica.

Este filme tem sido elogiado pelo seu sucesso de bilheteira, sendo uma história original, algo infelizmente raro nos dias que correm. No entanto, apesar de levantar temas interessantes e ser tecnicamente impressionante, não consegue escapar aos vícios que afligem o cinema mainstream americano. Talvez por medo de deixar alguma coisa à liberdade de interpretação do espectador ou talvez por não ter confiança na inteligência deste, o cinema americano atual tem uma obsessão por expor todos os elementos do seu enredo. Seja por narrações preguiçosas ou por flashbacks desnecessários, tudo é clarificado, tudo é explicado (mesmo quando por vezes o que é explicado é contrariado pelo desenvolvimento da narrativa). E, nesse aspeto, o cinema de Ryan Coogler não escapa a isto.

Apresentando uma capacidade para construir imagens evocativas, como é exemplo da cena central deste filme e que invoca tanto passado como futuro da cultura negra, a todos os momentos Coogler peca em explicitar toda a mitologia com que está a jogar. Isto acontece ao ponto em que retira poder à mensagem do filme como também retira o ritmo deste, dando origem a sequências de ação desconexas e que fazem com que o clímax do filme seja prolongado ao ponto em que deixa de ser um clímax, e ao ponto em que o filme perde a sua própria conclusão, existindo vários “finais” que, individualmente, são cinematicamente eficazes, deixam a desejar na forma como o filme se estrutura.

No fundo, o que poderia ser um filme que faz o espectador pensar em temas relacionados com, por exemplo, a forma como a cultura afro-americana interage com a cultura mainstream tendencialmente dominada por uma branquitude torna-se num espetáculo desconexo, superficial, pouco estimulante e talvez até culturalmente conservador, não saindo da fórmula de filme da Marvel, mesmo sendo uma história original e mesmo tendo momentos que certamente ficarão com o espectador. Pecadores é um filme que evoca imagens impressionantes e que apresenta boas interpretações, especialmente Michael B. Jordan, Delroy Lindo e a revelação que é Miles Caton, mas Coogler, sendo incapaz de deixar a lógica do cinema mainstream contemporâneo, é incapaz de deixar essa evocação ser livre para realmente atingir o seu potencial artístico e espiritual.

Classificação: 2 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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