Strange Darling é um filme único que não só vale a pena ver, como se deve ver e estudar. Começo exactamente desta forma esta crítica/análise, porque acho importante dizê-lo desde o início. São poucos os filmes que nos deixam com um sentimento intrínseco de que fomos enganados. De que fomos levados a acreditar numa narrativa, num nível de culpabilidade de A ou B das personagens que estão a ser apresentadas, mas que afinal as situações não são bem assim, e tudo isto está relacionado com a forma desconstruída com que a narrativa é apresentada, lembrando o público, de forma criativa e cativante, que o ponto de vista e ideias pré-concebidas são algo inerente ao ser humano e que moldam os nossos pensamentos e atitudes.
O filme teve estreia nacional no Festival MOTELX de 2024, e no que poderia ser um filme de terror perfeitamente banal no que concerne o género em si, percebem-se bem os motivos da sua selecção neste festival que é já um bastião no circuito de festivais de género, diria mesmo que a nível mundial, o que deixo também uma nota de parabéns pelo seu crescimento enquanto festa de cinema.
Num estilo que por vezes nos pode remeter para uma ou outra obra de Tarantino, é com a sua originalidade na montagem e organização dos seus capítulos, que consegue captar uma vertente ardilosa (o tal ‘engano’ a que me referia anteriormente) de forma bastante eficaz, o que catapulta esta Strange Darling para um patamar muito próprio e que é muito bem-vindo neste género, e não só, contribuindo para uma linguagem cinematográfica, que quando é bem concebida e trabalhada, consegue traduzir-se num filme com bastante corpo e alma, quase que se assemelha a um filme de nicho, sem o ser.
Para além deste ponto de vista muito distinto que acompanha todo o filme, é de realçar também pela positiva dois outros pontos: a banda sonora e o elenco. A composição sonora e a atmosfera criada consegue, por si só, envolver o espectador e encaixa que nem uma luva em momentos chave do filme, sendo também um dos pontos altos desta obra. Outro ponto de nota passa pelo elenco principal, que junta a actriz Willa Fitzgerald e o actor Kyle Gallner numa parceria recheada de química onde cada uma destas interpretações consegue complementar-se numa dualidade de sentimentos em duas ‘fases’ do filme, que acrescentam uma maior credibilidade ao guião.
Esta obra cinematográfica é, sem dúvida alguma, uma recomendação que vai para além dos amantes do género, e espero que encontre um público mais alargado.
Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por André Marques.
