Crítica: Um Dia Ainda Mais Doido / Quatro estrelas por Vanderlei Tenório

Um Dia Ainda Mais Doido: caos, nostalgia e gargalhadas garantidas

4 estrelas Críticas

Um Dia de Doidos (2003), de Mark Waters, é um produto típico do início dos anos 2000. Tinha a música, o guarda-roupa e, sobretudo, Lindsay Lohan. Ainda assim, as comédias de troca de corpos parecem resistir ao tempo, e é nesse espírito que chega Um Dia Ainda Mais Doido, de Nisha Ganatra, continuação que ninguém esperava, mas que se revela surpreendentemente eficaz. Passaram 23 anos desde o original e, num momento em que Hollywood recicla tudo o que já resultou, ver Lohan e Jamie Lee Curtis de volta como Anna e Tess Coleman soa menos a nostalgia e mais a uma revisitação bem-humorada da própria ideia de recomeço.

O filme parte de uma questão prática: como actualizar uma história tão marcada pelo seu tempo? O argumento de Jordan Weiss responde com engenho. A trama repete o feitiço, agora lançado por Madame Jen (Vanessa Bayer), mas multiplica o caos. Anna e a filha Harper (Julia Butters) trocam de corpos, tal como Tess e Lily (Sophia Hammons), filha do noivo de Anna (Manny Jacinto). A confusão é quádrupla, mas o filme não se perde. Pelo contrário, encontra aí uma oportunidade para brincar com as repetições e com os espelhos entre gerações.

Lohan e Curtis continuam a ser o centro da história e estão óptimas. Reviverem as próprias caricaturas adolescentes é, por si só, um comentário sobre o tempo e sobre a imagem pública que o cinema lhes impôs. Entre aulas de dança, entrevistas de imigração e campeonatos de pickleball, a narrativa flui sem tropeços, equilibrando humor e ternura.

Um Dia Ainda Mais Doido entende algo essencial: a comédia não vem apenas do absurdo da troca, mas daquilo que persiste mesmo quando tudo muda. O modo como pais e filhos se espelham, se repelem e, no fim, se reconhecem continua a ser o verdadeiro feitiço. A magia é apenas o pretexto. O que realmente funciona é o olhar, agora amadurecido, sobre o mesmo tipo de desordem emocional que fez do original um clássico adolescente.

Curtis e sua trupe

As interpretações são, quase todas, excelentes. Destacam-se sobretudo os quatro personagens que trocam de corpo, pelo contraste entre os papéis jovens e velhos. Jamie Lee Curtis diverte-se visivelmente a parodiar a si própria, vestindo roupas impróprias para a idade e fazendo o que não devia, sempre com graça e inteligência.

Julia Butters e Sophia Hammons entram em cena como quem já sabia o caminho. Não há hesitação, nem aquele ar de “estou num filme importante”. Fazem o que têm de fazer, e bem. Mas quem rouba o jogo é Manny Jacinto. Pai de Lily, noivo de Anna, tem aquele ar de quem sabe dançar sem pisar ninguém. É um papel pequeno, desses que o cinema costuma esquecer no genérico, mas ele transforma-o em coisa grande.

Jacinto já andou por muitos mundos. Foi o idiota querido em The Good Place, depois virou Jedi caído em The Acolyte. Agora, aparece aqui no meio de uma comédia de corpos trocados, e continua impecável. O homem tem um talento perigoso: faz parecer fácil o que é difícil. O noivo costuma ser o tipo que só serve para segurar o buquê. Ele, não. Dá-lhe alma. E um sorriso de canto de boca, como quem sabe mais do que diz.

E aí vem ela, Lindsay Lohan, a razão de tudo isto existir. A rapariga que fez o primeiro filme acontecer e que agora volta, vinte e tal anos depois, a tentar a mesma magia. Tenho acompanhado o seu regresso pela Netflix. Tem estado bem, vá. Cumpre, entrega, faz o serviço. Mas aqui não sei.

Parece-me um bocadinho travada, como quem tem medo de sujar o vestido. Há momentos em que brilha, sobretudo quando Jamie Lee Curtis está por perto, talvez porque Curtis a puxa, provoca, faz rir. Mas noutros, é como se ela própria se censurasse, com medo de exagerar, de ser de novo a Lindsay Lohan. E é pena. Porque quando ela se larga, o filme ganha ar, fica mais leve.

Gostava que tivesse simplesmente respirado fundo, esquecido o passado e brincado com o presente. No fim de contas, é uma comédia de corpos trocados, não há muito o que levar a sério.

A parte boa é a música. A banda Pink Slip, que Lohan criou no primeiro filme, não desilude. Ela sobe ao palco, faz duas actuações com Christina Vidal Mitchell, a Maddie, e Haley Hudson, a Peg, e ainda consegue arrebatar tudo com energia e carisma. É engraçado, porque uma das músicas já tem duas décadas, mas ela faz parecer que foi escrita ontem.

O que torna este filme imperdível?

O principal motivo que torna Um Dia Ainda Mais Doido imperdível é a capacidade do filme de evocar a mesma emoção que consagrou o original. A moral subjacente evoluiu, a trajectória dos personagens diverge da anterior, mas quem assistiu ao primeiro exemplar há 23 anos sentirá uma familiaridade imediata, amplificada e matizada. Com o dobro de corpos em disputa, surgem novas perspectivas e aprendizagens insuspeitadas, frequentemente com efeitos cómicos irresistíveis.

Do ponto de vista juvenil, Harper e Lily experienciam a complexidade da vida adulta com um misto de perplexidade e deslumbramento, confrontando a autoridade parental com a ingenuidade da sua própria visão de mundo. Para os adultos, habitar corpos jovens constitui não apenas uma oportunidade de reflexão sobre limites e desejos, mas também um exercício de ironia autoaplicada, uma espécie de espelho lúdico da própria identidade. É nesse hiato entre experiência e imaturidade que germina a comédia, acompanhada de uma ternura subtil que não se impõe, mas se insinua.

O elenco contribui decisivamente para a coerência e o encanto do filme. Jamie Lee Curtis diverte-se ostensivamente com os exageros que a própria carreira lhe permite, Lindsay Lohan alterna momentos de contenção e fulgor, e Manny Jacinto confere densidade a um papel que poderia ter permanecido periférico. Cada tropeço são meticulosamente explorados, transformando o absurdo intrínseco da troca de corpos numa fonte de observação perspicaz e entretenimento simultâneo.

Os trailers, ironicamente, subestimam a complexidade do filme, reduzindo-o a uma comédia ligeira e quase superficial. No ecrã, porém, cada cena assume dimensão própria, seja pelo humor refinado, seja pelo significado implícito. Momentos apenas para rir, como Curtis a remexer objectos de “velho” ou a experimentar preenchimento labial, funcionam mais como acentos irónicos do que como simples gags.

No conjunto, Um Dia Ainda Mais Doido consegue equilibrar sentimentalismo e humor sem jamais cair na banalidade ou na dulçor exacerbado. É uma sequência que honra o original, entretém e emociona, apelando simultaneamente à nostalgia e ao olhar crítico do espectador.

Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por Vanderlei Tenório.

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