Imagem/still do filme 'A Paixão de Cristo'

A Paixão de Cristo, o exame de Consciência de um Cristão

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Realizado e produzido por Mel Gibson, “A Paixão de Cristo” relata as doze horas finais da vida pública de Jesus Cristo, desde a sua captura e condenação até à eventual crucificação. Apesar do sucesso comercial, o filme ainda hoje divide opiniões, no sentido em que a violência grotesca, quase gótica, com que Jesus é espancado inquieta muita gente. Uma sinopse coloquial do filme seria, “Jesus apanha durante 90 minutos”. Bem, não só a considero incómoda, como também acho que deve incomodar, incluindo por razões alheias à violência. Assim, venho partilhar o meu testemunho enquanto cristão, de como este filme, de certa forma, por mais incongruente que pareça, alterou e reforçou a minha fé. Não o faço com o objetivo de doutrinar, mas sim de pôr em prática aquilo que Jesus tanto lecionou, viver a fé em conjunto. Também irei cobrir aspetos cinematográficos relevantes, pelo que, se não estiverem interessados em tal, saltem para o terceiro parágrafo, onde abordo o tema central.

Começando pela vertente histórica, tiro o chapéu a Mel Gibson. A utilização do aramaico, hebraico e latim, em vez do inglês, contribui para uma experiência mais imersiva. Sentimos que estamos a viajar no tempo e a testemunhar, em primeira mão, um dos momentos mais marcantes da história. O guarda-roupa, a caracterização das personagens e as interpretações também adicionam força a este realismo histórico. A brutalidade da violência, ainda que difícil de suportar, capta na perfeição a atmosfera da época. É realmente chocante ver o quão a vida humana era desvalorizada; valores como a empatia e a compaixão, digamos, estavam numa fase de desenvolvimento, sendo generoso. No que toca a Jesus, Jim Caviezel é fenomenal. Convido-vos a assistir à entrevista em que o ator de Barrabás revela que se converteu na cena em que olha Jesus nos olhos. A incorporação de momentos marcantes da vida de Jesus, espalhados ao longo do filme, funciona muito bem, na medida em que adiciona impacto ao foco da história. A relação com Maria, a salvação da mulher adúltera, a previsão da traição de Judas e da negação de Pedro, tudo isto encontra relevância a certo ponto da narrativa.

O desconforto a que me refiro na introdução vem, naturalmente, da brutalidade e violência infligidas a Jesus; no entanto, não se fica por aí. Ao longo do filme, Jesus é frequentemente confrontado com uma figura que representa o diabo, a tentação. De facto, a tentação é muita: todo aquele sofrimento pode terminar com uma simples renúncia da sua fé, da sua missão. Mas, como sabemos, nenhum chicote, pontapé ou prego é suficiente para quebrar aquilo que é o seu propósito, o seu sacrifício por nós. E aí está a verdadeira inquietação, aquela comichão à qual é impossível ficar indiferente. Mesmo vivendo numa sociedade livre, em que ninguém nos condena pela nossa fé, quantas vezes não renunciamos ou agimos em desconformidade com os seus princípios, para a satisfação do menor prazer ou do mais pequeno benefício? Talvez seja um alerta para tornar os nossos valores em algo menos estético e mais palpável, uma maior coerência. Isto aplica-se a outras dimensões da vida. Se alguém sofre assim por mim, o mínimo que posso fazer é valorizar a vida, combater a inércia, como diria Jesus , pôr os talentos a render. E com os outros? Se Jesus morre e sofre por mim desta maneira, o que me impede de tratar os outros com o mesmo carinho e afeição? Gosto particularmente de uma frase do Papa Francisco: “A única forma correta de olhar de cima para baixo é quando estendemos a mão para ajudar alguém a levantar-se.” No fundo, é um banho de água fria para qualquer cristão, um choque de realidade: “isto foi o que Jesus suportou por mim e eu ando a agir assim?” Está na hora de pôr as mãos à obra. Creio que, em inglês, seria um “reality check”.

Em suma, o filme alinha na perfeição com o propósito de Jesus no nosso coração: vem inquietar, transformar, revolucionar. Termino com um refrão de uma música católica, que sumariza a vivência cristã de forma bastante simples: “Tudo isto (a vida) me é dado, mesmo sem eu o merecer! Se não o recebo como dom, nunca o saberei agradecer! Quantas vezes bate o coração, sem nunca depender de mim? Quem é que eu sou para Ti, para gostares de mim assim?”.

Texto escrito por Francisco Empis.

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