Still do filme 'Star Wars: O Regresso dos Jedi'

A Profundidade Neglicenciada de Star Wars

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Recentemente, as horas excessivas de Instagram Reels revelaram-se, no mínimo, úteis, na medida em que o algoritmo reuniu-me com uma cena que confesso que já não via faz algum tempo. Refiro-me à icónica sequência, em Star Wars: O Regresso dos Jedi, onde Luke poupa a vida de Darth Vader, recusando, consequentemente, o lado negro da Força. Pois bem, o meu excesso de tempo livre convidou-me a uma reflexão, na qual concluí que, realmente, a profundidade de Star Wars é muitas vezes menosprezada. Não me interpretem mal: não é o maior ensaio filosófico alguma vez feito pelo homem, mas, certamente, Star Wars é muito mais do que extraterrestres que lutam com espadas brilhantes, cujos sons, ao embaterem umas contra as outras, replicávamos tantas vezes como crianças.

Quando era mais novo, lembro-me de o meu irmão mais velho, sempre que víamos estes filmes, perguntar-me a mesma pergunta: “Se vivesses neste universo, serias um Sith (vilões) ou um Jedi (heróis)?”. Como devem imaginar, a resposta era sempre a mesma… Contudo, tantos anos depois, a resposta já não é tão nítida. Não vos quero aborrecer com a complexidade do universo Star Wars, portanto serei o mais resumido e pragmático possível no enquadramento. Os Sith, no seu núcleo, são indivíduos escravos das suas necessidades; por menor que seja o prazer, têm de satisfazê-lo, o que leva a uma crescente ganância e corrupção do espírito. Já os Jedi sacrificam o prazer momentâneo pela virtude interior, o que implica abdicar de relações pessoais, por exemplo. Ou seja, enquanto os Sith prejudicam os outros em prol do seu bem-estar, os Jedi renunciam ao seu bem-estar para benefício de outros. Ora, como qualquer outro dilema moral, a escolha correta no abstrato (vista de fora) parece óbvia. No entanto, após introspeção, concluímos que agimos mais vezes para benefício próprio do que para benefício dos outros. Acontece que esta cena serve como exemplo perfeito para explicar o porquê de este comportamento se verificar.

A meu ver, agimos deste modo pois, normalmente, a escolha egoísta e mais tentadora é também a mais fácil a curto prazo, enquanto a escolha correta nos obriga a enfrentar a realidade, logo é, potencialmente, mais difícil e desafiante. Relacionando agora com a cena, Luke, após derrotar Darth Vader (seu pai), está consumido por ódio e vingança. Não há dúvida de que a decisão mais fácil e prazerosa no momento seria sucumbir à tentação do Imperador e finalizar o oponente, satisfazendo o seu prazer e completando assim a sua transição para o lado negro da Força. Porém, Luke, mesmo tendo noção do perigo, larga a sua arma: a decisão mais difícil e ousada, mas que sumariza na perfeição o comportamento de um Jedi (renúncia da vingança e da violência pelo perdão e pela paz). Naturalmente, esta atitude leva a consequências, neste caso, ser torturado pelo Imperador, até que o seu pai, num dos momentos mais memoráveis do cinema, redime todos os seus males ao virar-se contra o seu mestre, salvando Luke. Francamente, pode ser uma forma de nos mostrar que o bem é contagioso e que, embora a recompensa não deva ser o motor das ações nobres e corretas, é, em última instância, uma possibilidade.

Em suma, esta habilidade de um filme ou saga ter camadas, ou seja, ser atrativo para crianças e, ao mesmo tempo, convidar o público mais velho para uma reflexão, é algo que não é fácil e exige cenas deste calibre para funcionar e, acima de tudo, não deve ser negligenciado. Por isso, para todos os céticos que nunca viram Star Wars porque é “coisa de cromo”, convido-vos a dar uma chance; pode ser que aprendam uma coisa ou outra.

Texto escrito por Francisco Empis.

1 thought on “A Profundidade Neglicenciada de Star Wars

  1. Apreciei, consideravelmente, o artigo «A Profundidade Negligenciada de Star Wars», da autoria de Francisco Empis. A minha apreciação é ditada por dois aspetos que o artigo comprova: profundidade e clareza. A clareza vê-se perfeitamente na forma como enuncia as ideias e depois, pela mesma ordem, as aprofunda. A profundidade vê-se na forma como interpreta e relaciona essa interpretação com outras leituras (também já interiorizadas). Neste caso, um dilema que atravessa o espírito de qualquer ser pensante: quero viver só virada para o meu umbigo, à laia de bicho, ou assumo inevitavelmente a necessidade do esforço, do sacrifício e da rejeição por algo melhor é mais condigno da minha condição, a humana. Naturalmente, ninguém quer ser bicho, mas a atitude de Jedi mostra que ser humano obriga-nos a assumir certos valores e isso dói. Dói por variadas razões, mas julgo que uma delas é que podemos não ver recompensa nenhuma, a não ser a consciência (isso ninguém nos tira) de que fizemos bem e buscamos um bem maior. Ainda bem que o Francisco nos oferece esta leitura para lá da máscara e , por isso, deixo a partilha: tenho uma admiração secreta pela princesa Leia.

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