Há uma diferença entre desejar a identidade criativa de alguém e replicá-la. Entre deixar-se contaminar por uma influência e permitir que ela fale por nós… Bodyhackers, de Carlos Conceição, parece não conseguir escapar a essa segunda condição.
Pesa-me criticar Cinema Português – existe sempre uma vontade de proteger, celebrar e enaltecer o que é nosso, sobretudo num contexto em que a produção nacional continua a precisar dessa atenção. Mas há momentos em que a melhor forma de levar um filme a sério é precisamente recusarmos-nos a elogiá-lo por aquilo que poderia ter sido.
Bodyhackers prometia um território particularmente fértil: o corpo enquanto matéria mutável e vulnerável, a indústria enquanto extensão das violências que promove e a catástrofe como possibilidade de transformação física e psicológica. O body horror é um dos subgéneros mais fascinantes do Cinema, precisamente porque pode ser tudo ao mesmo tempo – visceral e conceptual, político e íntimo, repulsivo e belo. É um suficientemente plástico para que cada cineasta possa deformá-lo à sua imagem.
É justamente a panóplia de imagens que não cheguei a encontrar… É inevitável convocar David Cronenberg. Não apenas porque o seu cinema constitui uma das grandes fundações do horror corporal moderno, mas porque Bodyhackers parece dialogar tão diretamente com esse legado que, por vezes, quase desaparece dentro dele. Não há nada de condenável em partir de Cronenberg, seria até estranho abordar o corpo tecnológico, a mutação ou a matéria industrial sem reconhecer a sua sombra. O problema está em não transformar essa sombra numa outra coisa…
Em Bodyhackers, a influência parece permanecer demasiado à superfície. Os temas insinuam-se, mas não amadurecem, o filme apresenta conceitos que parecem pedir uma reflexão mais profunda e, em vez de os escavar, contenta-se frequentemente com a sua aparência. Há uma espécie de distância entre aquilo que o filme quer evocar e aquilo que efetivamente consegue pensar. A linguagem audiovisual é genericamente funcional, mas raramente parece inevitável ou para lá do sentido estético. Imagem, montagem, som e performance parecem pertencer a um mesmo filme sem necessariamente respirarem no mesmo tom. Existe uma dessincronização que não interpreto como uma escolha deliberada de estranhamento, mas como sintoma de uma linguagem indecisa. O filme parece procurar constantemente uma atmosfera sem chegar a descobrir a sua própria temperatura.
Há uma excepção particularmente bela: as superfícies reflectoras. É aí que julgo encontrar-se um possível vestígio de autoria, nos espelhos. Os corpos deixam de ser apenas corpos e tornam-se imagens fragmentadas, duplicadas, refratadas. O reflexo introduz uma instabilidade visual que dialoga com a própria ideia de transformação: aquilo que vemos nunca é aquilo que está diante de nós, é uma identidade dividida, uma matéria que já não se reconhece a si própria. Gostaria que Bodyhackers tivesse seguido esse caminho com passadas mais firmes.
É um filme incapaz de converter as suas referências em experiência própria. Há uma diferença enorme entre reconhecer a gramática de um mestre e encontrar uma língua dentro dessa gramática. Saí de Bodyhackers com a sensação de ter assistido a um filme que conhece demasiado bem o Cinema que quer habitar e ainda não conhece suficientemente o Cinema que quer fazer.
Texto escrito por Manuel Seatra.

