Shrek 2 é, sem dúvida, a melhor comédia romântica até à data. How to Lose a Guy in 10 Days, Ten Things I Hate About You e Notting Hill são filmes competentes e agradáveis de assistir. Contudo, não passam de histórias sobre personagens atraentes que tomam decisões moralmente questionáveis, até o guião se lembrar que tem de acabar juntos, com uma música clichê de fundo. Para aqueles que se estão a questionar: sim, Shrek pode e deve ser considerado uma comédia romântica. No capítulo da comédia, não preciso de elaborar — a personagem do Burro justifica o género. E, se por romance entendermos uma história que, essencialmente, gira em torno da relação de duas personagens, então é esse o caso. Sem mais demoras, permitam-me apresentar-vos um ícone da animação e, para além disso, um dos meus filmes favoritos.
Na minha opinião, e creio que seja consensual, uma sequela deve manter a integridade do original, ao mesmo tempo que expande para novos temas, minimamente relacionados com a obra de origem. Um bom exemplo, revelando a magreza do meu alcance cinematográfico, é Spider-Man 2, considerado uma das melhores sequelas mainstream. Este filme mantém as características fundamentais do icónico super-herói, enquanto explora um tema mais profundo: a dificuldade de equilibrar a vida de Peter Parker com a de Homem-Aranha. Aqui não é muito diferente, o tema da franquia Shrek é o amor; Shrek (2001), aborda um tema importante no amor, porém mais genérico e comum, o amor é cego. Ora neste filme somos surpreendidos com algo mais profundo e diria que tão ou mais importante. O amor muda-nos, e deve mudar-nos. Envolve sacrifícios, mas essa mudança é necessária, pois só nos tornamos quem realmente somos quando estamos com quem amamos. Shrek e Fiona valorizam e reconhecem que as suas respetivas formas físicas (ogre e humana) são partes cruciais daquilo que são, da sua essência; contudo, estarem um com o outro é mais vital do que qualquer outra característica. Assim, de certa forma, o amor transforma-nos em algo melhor, ou seja, na nossa versão mais verdadeira e completa. Não nos apaga, mas aproxima-nos de quem realmente somos. Não é o tipo de mensagem que costumamos encontrar nas tão celebradas (e “adultas”) comédias românticas.
A nível da comédia, Shrek 2 continua a não desiludir. Este verão, tive o prazer de rever este filme com um amigo, e lá estávamos nós, dois adultos, a rir-nos do início ao fim com um filme classificado como M/6. Seja o humor mais básico e visual, como o rato cego cair para o poço ao tentar acender dinamite, ou as referências culturais inteligentes (Missão Impossível, por exemplo), ou até mesmo humor mais direcionado para adultos (Gato das Botas é apanhado com um saco de erva no bolso), enfim… Tudo funciona; a escrita é incrivelmente refinada. A dupla de Shrek e do Burro mantém a qualidade; “Are we there yet?” é, até hoje, das cenas mais citadas entre fãs, e a dinâmica evolui para um trio com a introdução do lendário Gato das Botas. O timing, o sotaque — Antonio Banderas encarna uma das melhores adições vistas numa sequela. Não seria uma análise de Shrek 2 se não se mencionasse a cena de invasão ao castelo. Shrek (montado num biscoito gigante) e os seus amigos, numa corrida contra o tempo, ao som de um cover brilhante de I’m Holding Out for a Hero, foi provavelmente o que me motivou a um dia querer escrever um filme; só para replicar uma cena como esta. A edição, a música e, claro, o sacrifício épico do Gato das Botas para honrar a sua dívida… É Cinema. Devo enfatizar que não havia necessidade absolutamente nenhuma para uma cena de ação tão épica num filme de animação, mas antigamente os filmes eram assim; as redes sociais hoje descrevem-no como “love of the game”.
Como se não bastasse, é impossível não falar da banda sonora. A missão não era fácil, afinal Shrek (2001) conta com uma das bandas sonoras mais icónicas de sempre; “All Star” e “I’m a Believer” são apenas alguns exemplos. Todavia, nada nos poderia preparar para o que vinha a seguir… Shrek 2 inclui “Accidentally in Love”, “Holding Out for a Hero” e fecha com o clássico “Livin’ la Vida Loca”. Provavelmente já vem tarde, mas vou dizê-lo na mesma: Eddie Murphy tem de dar uma oportunidade à sua carreira musical, os seus covers arrepiam, no bom sentido.
Em suma, Shrek 2 é uma sequela que acerta em todos os aspetos, mas importa realçar a relevância atual da sua mensagem. Num mundo tão focado no “eu” e no “fazer o melhor para mim”, onde o sucesso individual é frequentemente priorizado e as relações podem ser vistas como uma perda de tempo ou uma limitação, são histórias como esta que nos relembram que o verdadeiro eu só se realiza na presença de quem mais gostamos( de forma romântica ou não) . O amor altera-nos, é um facto, aproximando-nos de quem realmente somos. Convido-vos, então, a revisitar este título ,não custa nada, são noventa minutos — na esperança de que se divirtam tanto como eu e cheguem à inevitável conclusão: Shrek 2 é a melhor comédia romântica de todos os tempos.
Se bem que Crazy, Stupid Love também é excelente para ser honesto…
Texto escrito por Francisco Empis.

