Um corretor imobiliário que trabalha diariamente a vender a ideia de uma vida confortável, mas que não consegue garantir uma casa para si próprio. Esta é a premissa de Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver, curta-metragem de Filipe Amorim que aborda a crise habitacional a partir de uma figura marcada pela contradição: alguém que promove um mercado do qual também é excluído.
A escolha do protagonista surgiu do interesse do realizador por personagens ambíguas e situações paradoxais. “Gosto de tudo que não seja nem branco, nem preto. Sempre me agradou a ideia do paradoxo, do anti-herói, da ambiguidade”, explica Amorim.
Ao pensar em como representar a crise do mercado imobiliário sem recorrer a uma abordagem evidente, o cineasta encontrou no humor uma forma de revelar as contradições deste cenário. “O próprio drama retratado de forma cómica já é, por si, paradoxal”, afirma.
Para o realizador, a personagem sintetiza uma das grandes ironias do mercado actual: “Um profissional que promove uma indústria na qual não consegue vingar enquanto cliente”.
Um falso documentário entre ficção e realidade
A linguagem do falso documentário foi uma das principais escolhas narrativas da curta-metragem. Inspirado pelo cinema documental e pela entrevista, Amorim procurou uma estética próxima do verité, aproximando a ficção de situações reais.
“Optei por esta linguagem por ser uma forma punk rock de fazer cinema e de fazer acontecer no espírito de guerrilha”, explica.
A ideia inicial era seguir uma estrutura semelhante à série The Office, mantendo uma narrativa totalmente ficcional com actores. No entanto, durante o processo de produção, o realizador percebeu que trabalhar com espaços e pessoas reais poderia fortalecer a obra.
“Enquanto produtor e realizador, percebi que iria concretizar isto mais facilmente se assumisse espaços e pessoas reais”, conta.
A experiência levou o filme para uma fronteira entre representação e realidade. Durante as gravações numa imobiliária, alguns trabalhadores chegaram a acreditar que Amorim era realmente um consultor imobiliário.
“De repente, estava num contexto real, numa imobiliária real, com trabalhadores reais, em que muitos achavam que eu era mesmo um consultor, porque não conheciam o meu trabalho enquanto artista”, relata.
O interesse por este formato continuou depois da curta-metragem. Amorim conta que já filmou, também com Rodrigo Tavares AIP, uma série de cinco episódios chamada Se Não Tivesse Acontecido, Não Acreditava, em que assume diferentes personagens em contextos reais.
O mercado das aparências e a pressão pelo sucesso
A personagem Sérgio também representa uma sociedade em que demonstrar sucesso se tornou quase uma obrigação. Para Filipe Amorim, a lógica do “fake it until you make it” ganhou novas dimensões com as redes sociais, que muitas vezes escondem dificuldades e fracassos.
“As redes sociais tornaram-se este espaço que não estimula a partilha das partes menos boas, e isso, além de ser falso e incompleto, é desinspirador”, afirma.
O realizador destaca que existe uma diferença entre acreditar nos próprios objectivos e construir uma imagem enganadora que afecta outras pessoas.
“Eu acredito muito na capacidade do ‘fake it until you make it’ e que alcançar os nossos sonhos requer um traço de estupidez e ilusão, mas isso tem de ser nivelado. Quando envolve outras pessoas, aí já começa a roçar a ética e a ilegalidade.”
Esta tensão aparece no próprio universo imobiliário retratado no filme, em que a aparência de estabilidade muitas vezes funciona como uma ferramenta de convencimento.
Do improviso ao retrato da precariedade
Algumas das cenas mais marcantes da curta-metragem nasceram justamente da relação entre o planeamento e o acaso. O chamado “grito do bicho”, ritual motivacional realizado dentro da empresa, surgiu durante as filmagens.
Segundo Amorim, Jay Oliveira apresentou a dinâmica durante uma reunião matinal da agência e acabou por criar uma situação inesperada.
“Eu fui apanhado completamente desprevenido. Acho que foi a única vez em que corei em personagem, e não quis desfazer-me”, recorda.
A cena, que levou a personagem a escolher o falsete de uma gaivota como o seu “grito”, acabou por ser reconhecida por espectadores de outros países como uma representação de práticas corporativas semelhantes.
Outro momento de forte carga simbólica é a cena em que Sérgio come vegetais crus na rua. Para Amorim, esta situação tem uma ligação pessoal com experiências de precariedade.
“Já passei por trabalhos mais precários e fases difíceis, em que substituía a refeição por cenouras cruas”, revela.
Embora ressalte que o filme não seja autobiográfico, o realizador reconhece que as suas vivências atravessam a criação. “É inevitável levar as experiências que vou tendo para os meus guiões.”
Quando o corpo se torna moeda de sobrevivência
Um dos momentos mais curiosos da curta envolve o uso de aplicações de relacionamento como estratégia para conseguir um lugar onde dormir. A situação leva a personagem a um limite em que a própria vulnerabilidade passa a ser negociada.
“Qual é a moeda final de troca que nos sobra quando ficamos despojados de tudo? O que é que nos serve? É o corpo”, afirma Amorim.
A sequência também amplia o olhar para outras personagens. A colega de Sérgio, interpretada por Ana Lamas, apesar de possuir estabilidade financeira, também utiliza uma identidade falsa em aplicações de relacionamento.
Para o realizador, esta escolha revela uma outra forma de ausência: “Eles acabam por se encontrar nesse sentimento de desconexão geracional.”
Da esperança ao peso da falha
A transformação visual do filme acompanha a trajectória emocional do protagonista. A narrativa percorre um dia inteiro, começando com uma sensação de possibilidade e terminando num ambiente mais sombrio e claustrofóbico.
“Os inícios do dia ainda estão cheios de esperança e possibilidades. Acreditamos sempre que temos tempo, que estamos ágeis, que somos capazes”, explica.
Com a chegada da noite, surge a percepção dos objectivos não alcançados. “Cai a noite e foi-se o intervalo onde podíamos ter cumprido os nossos objectivos e sentimos o peso da falha.”
A construção da personagem também evita uma visão simplista. Para Amorim, Sérgio é, ao mesmo tempo, vítima e participante do sistema que o oprime.
“Acho que é um pouco dos dois. Não acho que o Sérgio esteja de todo no controlo da sua vida, mas o facto é que compactua com o sistema que conspira para esse descontrolo.”
Um retrato da crise habitacional contemporânea
Mais do que contar a história de um indivíduo, Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver procura reflectir sobre uma realidade social em que a habitação passou a ser uma das maiores fontes de insegurança.
Para Filipe Amorim, o debate sobre o acesso à habitação já existe independentemente do filme, mas a obra pretende contribuir para esse registo.
“Esta situação é muito auto-explicativa e não é preciso ser muito inteligente para perceber estas desproporções”, afirma.
Ao abordar a crise imobiliária portuguesa, o realizador vê o cinema como uma forma de documentar as contradições de um período histórico.
“Este filme é uma forma de tentar deixar o meu contributo ao retratar e reconhecer que esta realidade existiu.”
No fim, Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver não está apenas interessado na falta de uma casa, mas no que acontece quando a promessa de estabilidade se transforma numa performance permanente. Sérgio vende imóveis, repete discursos de sucesso e tenta sustentar a própria imagem enquanto a realidade insiste em contrariá-lo.
Ao escolher a comédia para abordar uma questão tão concreta, Filipe Amorim encontra um caminho para revelar o absurdo de uma época em que o acesso à habitação se tornou uma das maiores fontes de ansiedade. O riso surge, mas permanece acompanhado de uma pergunta incómoda: o que sobra quando até a ideia de futuro passa a ser um produto à venda?

