Crítica: A Providência e a Guitarra / Três estrelas por Jasmim Bettencourt

A Providência e a Guitarra – Uma celebração da arte e do absurdo

3 estrelas Cinema Português Críticas IndieLisboa

Numa era distante, dois artistas ambulantes, Léon e Elvira, tentam apresentar o seu espetáculo numa pequena vila mas entram em conflito com a autoridade local, cuja incompetência os impede de adquirir a licença para o espetáculo. Rebelando-se contra esta injustiça, Léon e Elvira encontram uma diversidade de personagens ao longo de uma longa noite. Ao mesmo tempo, episódios da contemporaneidade assombram esta história. Com uma teatralidade ironizada, João Nicolau convida-nos para uma viagem do absurdo que liga uma idealização do passado ao presente, celebrando assim o poder da arte num mundo que cada vez faz menos sentido.

Filmado de forma a realçar a sua teatralidade, A Providência e a Guitarra é um filme que não se encara de forma séria e encontra a sua força e humor exatamente nisso. É um filme em que a arte se revela como tal, sem pretensão de ilusão, e reflete sobre a sua posição no mundo. Funcionando em duas linhas narrativas, uma no passado e outra no presente, a sua força está na artificialidade deste passado imaginado, sendo que os momentos que remetem para o nosso presente parecem sentir-se como supérfluos. Através de um entrelaçar dos dois tempos, estes momentos parecem funcionar mais como interlúdios que afastam o espectador do filme, quebrando o seu ritmo e não adicionando substância a esta história e à sua ironia, que poderia ser mais cativante.

No entanto, as interpretações de Pedro Inês e Clara Riedenstein ancoram o filme e incorporam a auto-consciência do filme. Desde o primeiro momento teatral ao final, o espectador é capturado pelo carisma destes personagens invulgares, que são o verdadeiro coração do filme. Para além deles, está um mosaico de personagens peculiares que dão cor a esta jornada, desde um comissário corrupto, interpretado por Américo Silva, a um estudante perdido, interpretado por Salvador Sobral. Nisto encontra-se um caos delicioso que, apesar de desnivelado e imperfeito, transpira carisma e reflete o caos e o absurdo do nosso mundo.

Classificação: 3 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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