É praticamente impossível não saber ou não ter conhecimento da história (ou parte dela) do Conde com os dentes caninos mais afiados do mundo. Ora, após inúmeras adaptações em diversas áreas culturais e em diversos formatos, tempos, pontos de vista e estilos, o que é que um filme com o título Drácula, lançado em 2026, pode trazer algo de novo a esse manancial de obras? Bom, só se esse filme for realizado por alguém que tenha uma forma muito peculiar de realizar e contar narrativas que transgredem as normas mais populares pelas quais a indústria cinematográfica se rege. Alguém que trabalhe um pouco pelas bermas do Cinema. Alguém como, felizmente, Radu Jude.
Este é o realizador que nos tem presenteado com filmes recentes como Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental (2021), Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo (2023) ou Kontinental ’25 (2025). Todos estes filmes têm uma estrutura muito própria e o cunho pessoal do realizador, fazendo com que este cinema meio marginal tenha algo de único na sua abordagem, e isso transformará o público em admiradores ou detractores das suas obras, não havendo aqui espaço para meios termos.
Na minha perspectiva, julgo que Radu Jude é uma das vozes mais interessantes do cinema contemporâneo. Escrevo isto não de um ponto de vista técnico ou de uma criatividade fora da caixa, mas sim pela forma como o realizador consegue envolver o espectador e colocar-nos quase que dentro da narrativa, como se fôssemos figurantes a vaguear pelos corredores da história, passando pelo fundo como fantasmas, mas cuja atenção está sempre voltada para a narrativa.
Neste seu Drácula aplica-se o mesmo e a envolvência demonstra o cunho e estilo pessoal deste realizador. Esta obra desdobra-se em diversas pequenas histórias, quase como que curtas-metragens interligadas entre si, onde diferentes versões deste conde multifacetado são apresentadas. O fio condutor do filme demonstra uma preocupação latente do realizador em problemas sociais contemporâneos, onde a própria figura de Drácula serve como pano de fundo para uma crítica social que se reveste também em colocar as personagens centrais do filme num tempo e espaço que têm mais em comum do que à primeira vista possa parecer.
Não sendo este o filme mais interessante de Radu Jude, continua, no entanto, a sua trajectória ‘alternativa’ e mantém o ritmo que o caracteriza, pecando talvez por um recuar e avançar entre histórias que não contribui para uma experiência tão envolvente em cada história por si, e perdemos um pouco o foco em certos momentos, mas continua a ser uma experiência à la Radu Jude.
Drácula estreia dia 29 de outubro nos cinemas em Portugal.
Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por André Marques.
