O realizador português Pedro Cabeleira representa uma nova geração de cineastas que está a levar o cinema nacional para um novo rumo, onde as diversas realidades sociais substituem um certo intelectualismo e voyeurismo que estavam impregnados no cinema português, de certa forma, e de onde parecia não existir uma alternativa ou a criação de novas concepções, outros tipos de cinema, principalmente num meio como a sétima arte, tão rico e diverso. Este seu Entroncamento é exactamente um grande exemplo disso.
A forma crua e directa, sem rodeios nem artimanhas de sedução do espectador, como Entroncamento é apresentado, consegue deixar o público vidrado nas cenas e sequências que demonstram uma realidade por vezes escondida ou manipulada, e que se não prestarmos atenção, ou estarmos distraídos com o dia-a-dia e a vida pessoal de cada um de nós, obviamente que passa ao lado. E esta obra obriga-nos a ver e a prestar atenção, e é esse o seu grande trunfo e ousadia. Uma ousadia muito bem-vinda e conseguida, porque não cai em esquemas narrativos melodramáticos, ou em jeito de ‘telenovela’, e essa sua força é muito potente e consegue criar uma dinâmica muito bem equilibrada no filme. Pedro Cabeleira já o tinha feito, num formato mais curto, no seu filme anterior, By Flávio, a esse nível.
Para além do argumento, realização e todas as componentes técnicas executadas exemplarmente, o filme recai muito no seu elenco e na forma como este consegue carregar o filme e interligar as suas personagens e o ambiente aqui retratado. E todo o elenco cumpre exactamente o seu papel, e supera expectativas, com destaque claro para as prestações de Rafael Morais e Ana Vilaça, que reafirmam aqui porque são dois dos melhores actores portugueses da sua geração.
Em toda esta ousadia, o que acaba por pecar é a nível da duração do filme no que toca a ter tempo para explorar melhor os passados e motivações de algumas das suas personagens, mas que não é limitador no cômputo geral do filme.
Pedro Cabeleira é uma das grandes novas vozes do cinema português, que está a trilhar um caminho deveras interessante, onde creio que o público irá abraçar e reconhecer o seu talento. Este seu Entroncamento caminha para se tornar num dos filmes portugueses do ano.
Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por André Marques.
