Desde os anos 80, no Japão existe a prática de “alugar” membros de família ou amigos, interpretados por atores, para levar a eventos sociais, programas de família ou para combater a solidão, e essa é a realidade que Família de Aluguer vem apresentar ao Ocidente.
Vamos ser sinceros, um filme em que uma personagem é “contratada” para fingir ter algum tipo de relação com outra, não é algo nunca antes visto, e nesse sentido, Família de Aluguer não traz nada de novo. O desenrolar da história e o desfecho são bastante previsíveis, mas mesmo assim, apesar do Brendan Fraser protagonizar este filme e fazer um trabalho fantástico, são as personagens secundárias e o facto de passar num país tão diferente que fazem deste filme singular.
Este conceito de “família de aluguer” expõe as fragilidades culturais do Japão, onde a imagem pública é muito importante e isso leva a que muita gente sinta a necessidade de criar uma fachada para pertencer ou não ser julgada (tatemae em japonês). Enquanto muitos filmes ocidentais com personagens a viver uma fachada nos fazem questionar se temos mesmo de criar uma vida falsa para nos integrarmos ou se não era melhor simplesmente aceitar e estarmos bem com a nossa vida, em Família de Aluguer, como o tatemae faz parte da cultura, é mais explorada a possibilidade de haver alguma verdade na fachada.
Como ator, eu achei este filme muito interessante porque apesar da personagem não estar a fazer o tradicional trabalho de ator, tudo o que ele faz é trabalho de ator e para mim foi muito engraçado ir encontrando essas semelhanças. Claro que é diferente, para começar ele não está propriamente a fazê-lo para um público. No entanto, podemos considerar a pessoa que o contratou como o seu público, porque é a ela que ele tem de mostrar verdade nas circunstâncias que esta lhe dá. Se pensarmos nas várias histórias, em que atores tiveram dificuldade em se distanciar do papel, é fácil perceber que estes familiares de aluguer também podem acabar por misturar a sua vida profissional com a pessoal. Uma coisa é quando a produção de uma peça ou um filme chega ao fim, cada um segue com a sua vida, mas nesta profissão é mais fácil as coisas acabarem por se misturar. Mesmo muitas destas empresas tenham regras rigídas sobre os limites emocionais e não poder haver envolvimento romântico real, estas coisas nunca são fáceis de controlar. Acho que este é a principal questão na qual ficamos a refletir depois deste filme, que explora muito a solidão moderna e a forma como lidamos com o nosso afeto nos dias de hoje.
Tudo isto que eu já mencionei só funciona muito graças à graças ao argumento da autoria da realizadora Hikari, que consegue apresentar-nos todas estas questões um bocado bizarras com leveza, de forma a que estejamos disponíveis e não julgarmos nada. A comédia e as performances também ajudam nisso. Apesar de haver momentos em que nos diz como é que nos devemos sentir, também nos dá espaço para refletirmos e vermos as personagens pelos nossos olhos.
Família de Aluguer não reinventa nada, mas apresenta-nos uma realidade com a qual não estamos muito familiarizados e cumpre como o feel good movie que se propõe a ser.
Classificação: 3.5 em 5 estrelas. Texto escrito por Arknel Marques.
