Crítica: Hamnet / Três estrelas e meia por Jasmim Bettencourt

Hamnet – O Íntimo Dentro da Tragédia

3.5 estrelas Críticas

Há figuras na história cuja figura torna-se mais mitológica e institucional do que humana. William Shakespeare é uma delas. Com um espólio de obras com um impacto gigantesco na cultura anglófona e não só, é fácil focar nesta figura, neste mito. No entanto, em Hamnet, somos convidados não só a olhar para o homem por trás da obra mas, principalmente, para a mulher por trás do homem. Com um olhar sensível, Chloé Zhao constrói um melodrama cativante que explora o contexto emocional em que uma das peças mais importantes da língua inglesa foi escrita, olhando para além do mito e da lenda, encontrando o cru e o humano.

Um dos pontos mais interessantes de Hamnet, cuja presença pode ser encontrada noutros filmes de Zhao, é a ligação da protagonista, neste caso, Agnes, e a natureza à sua volta. É através da natureza que é encontrada a libertação pois nesta não se encontram os preconceitos da sociedade. É nesta ligação presente em Agnes que se encontra o aspeto mais fascinante desta personagem – uma ligação que lhe permite escape ao machismo da sociedade isabelina mas que, ao mesmo tempo, a torna num alvo, pois sai do seu papel preconcebido de mulher cuidadora. É nesta ligação com natureza em que o filme se torna mais belo e emocionante, agarrando os nossos corações, fazendo-nos sentir algo de sublime.

No entanto, no desenrolar da trama do filme – quando voltamos ao familiar, à sociedade humana – o filme parece perder-se num certo tom novelesco e exagerado, tirando algum do seu brilho. Hamnet alterna numa dualidade entre a libertação da natureza e a opressão da família, sendo mais bem sucedido no primeiro do que no segundo. Apesar disto, as interpretações de Jessie Buckley e Paul Mescal conseguem nos puxar para este melodrama, incorporando os seus personagens de uma forma crua e real, elevando assim as partes mais fracas deste filme. Jacobi Jupe também surpreende como a personagem titular, conseguindo tornar este personagem em algo mais do que a origem de uma tragédia.

Apesar das fraquezas presentes na narrativa de Hamnet, Chloé Zhao consegue construir um momento que afunila todo o filme para um clímax emocional tremendo, ao qual é difícil resistir sem lágrimas. O mais impressionante nisto, é a forma como é possível encontrar novos significados num material com um historial tão grande de debate – a obra de Shakespeare e, mais especificamente, a obra-prima que é Hamlet. Através deste filme, Zhao revela algo novo que está presente nesta peça – algo de íntimo e doloroso. Em Hamnet, é revelado o poder da arte para encontrar reconciliação com o trauma e a dor, tornando-se assim num filme que contém uma beleza ímpar, apesar das suas falhas.

Classificação: 3.5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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