O realizador romeno Cristian Mungiu venceu este sábado (23) a Palma de Ouro da 79.ª edição do Festival de Cannes com “Fjord”, consolidando o seu regresso ao topo do cinema europeu quase duas décadas depois de ter conquistado o mesmo prémio com “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, em 2007, thriller sobre o aborto ambientado na Roménia da era comunista.
Descrito por Guy Lodge, da revista Variety, como um “complexo drama moral”, o filme acompanha a família romena Gheorghiu, que se muda para uma pequena aldeia da Noruega e desenvolve uma relação próxima com os vizinhos, os Halberg. O equilíbrio entre as duas famílias começa a ruir quando uma das filhas do casal romeno surge na escola com hematomas, desencadeando suspeitas e um debate público em torno da educação tradicional imposta pelos pais.
Escrito pelo próprio Mungiu, “Fjord” é protagonizado por Renate Reinsve, nomeada este ano ao Óscar de melhor actriz por “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, vencedor do Óscar de melhor filme internacional, ao lado de Sebastian Stan, nomeado no ano passado pela sua interpretação do jovem Donald Trump em “The Apprentice”, de Ali Abbasi.
“Fjord” é o primeiro filme de Mungiu realizado fora da Roménia e também o primeiro filmado, pelo menos parcialmente, em língua inglesa. Ainda assim, a obra retoma temas centrais da filmografia do realizador, como a globalização, o conflito cultural e as divisões entre ricos e pobres, Oriente e Ocidente, tradição e progressismo.
Em entrevista concedida a Scott Roxborough, do The Hollywood Reporter, Mungiu revelou que “Fjord” nasceu de uma série de casos reais envolvendo conflitos culturais entre famílias imigrantes e autoridades dos países nórdicos.
“Comecei por vários artigos na imprensa, mas particularmente um que é muito parecido com o que se vê no filme”, explicou o realizador. “Há cerca de dez anos houve um conflito entre uma família polaca e as autoridades dinamarquesas, depois outro entre uma família indiana e as autoridades suecas, e agora este caso de uma família romena e as autoridades norueguesas.”
Segundo Mungiu, foi a repetição desses episódios que o levou a identificar um padrão de choque entre visões conservadoras e progressistas da educação e da família.
“Aos poucos, comecei a perceber esse padrão de conflito entre valores conservadores e valores progressistas, algo mais evidente nos países nórdicos, por serem os mais progressistas da Europa”, afirmou.
O cineasta disse ainda que acompanhou o caso romeno em profundidade antes de escrever o argumento.
“Contactei as famílias e conversei com elas. Fui à Noruega para falar com promotores, juízes e jornalistas. No fim, decidi ficcionalizar a história, em vez de fazer uma reconstituição directa. Portanto, não aconteceu exactamente daquela forma, mas o filme não está muito distante daquilo que descobri.”
Questionado por Scott Roxborough sobre o que o atraiu nesse conflito entre uma sociedade progressista e uma família conservadora, Cristian Mungiu confidenciou que vê essa tensão como uma das principais fracturas das sociedades contemporâneas.
“Creio que este é o grande conflito do nosso tempo, dos Estados Unidos à França, da Itália à Noruega e à Roménia”, observou o realizador. “Vivemos em sociedades profundamente polarizadas, onde diferentes grupos acreditam possuir a única verdade possível. Isso criou uma espécie de violência social que torna cada vez mais difícil a convivência.”
Segundo Mungiu, a crescente radicalização impede qualquer tentativa de diálogo ou entendimento entre posições divergentes.
“Estamos tão divididos em grupos fechados que deixámos de procurar um terreno comum. Muitas vezes ficamos surpreendidos com resultados eleitorais precisamente porque já não conversamos com quem pensa de forma diferente nem tentamos compreender as suas inquietações.”
O cineasta defendeu ainda o papel do cinema como ferramenta de reflexão sobre os impasses políticos e sociais da actualidade.
“Para mim, o cinema deve abordar as preocupações centrais do tempo em que vivemos. Tento sempre compreender, através dos meus filmes, qual é a grande questão do momento”, explicou. “Este conflito não tem uma solução simples, mas é algo que precisamos enfrentar. Caso contrário, corremos o risco de destruir simbolicamente — ou até literalmente — aqueles que não pensam como nós.”
Durante a cerimónia de encerramento, o presidente do júri, o cineasta sul-coreano Park Chan-wook, comentou com humor a escolha da Palma de Ouro. A comissão responsável pelos prémios desta 79.ª edição reuniu algumas das principais figuras do cinema contemporâneo, entre elas Demi Moore, Chloé Zhao, Stellan Skarsgård, Ruth Negga, Laura Wandel, Diego Céspedes, Isaach De Bankolé e o argumentista Paul Laverty.
“Eu não queria dar a Palma de Ouro a ninguém, porque ainda não ganhei uma. Mas não tinha outra escolha”, declarou.
A vitória representa também mais um triunfo para a distribuidora norte-americana Neon, que arrecadou a Palma de Ouro pelo sétimo ano consecutivo.
Outros vencedores da competição
O realizador russo Andrey Zvyagintsev, actualmente exilado, recebeu o Grand Prix por “Minotaur”. Sexta longa-metragem do cineasta e a primeira desde “Loveless” (2017), o filme marca o regresso de Zvyagintsev à competição de Cannes, onde já havia sido premiado anteriormente com “The Banishment” (2007), “Leviathan” (2014) e o próprio “Loveless”, também nomeado ao Óscar de melhor filme internacional.
Para Guy Lodge, da Variety, “Minotaur” é “uma reflexão desesperançosa e sombriamente engraçada sobre corrupção e traição na Rússia de Putin”. Ambientada em 2022, a obra acompanha uma família russa de classe média afectada pelas transformações provocadas pela guerra na Ucrânia.
O Prémio do Júri distinguiu “The Dreamed Adventure”, da realizadora alemã Valeska Grisebach, cineasta associada à chamada Escola de Berlim e reconhecida por dramas como “Western” (2017). O filme acompanha uma arqueóloga que trabalha numa cidade fronteiriça entre Bulgária, Grécia e Turquia, onde reencontra uma figura do seu passado, desencadeando memórias e tensões há muito adormecidas.
O prémio de melhor argumento foi atribuído ao francês Emmanuel Marre por “A Man of His Time”, drama histórico protagonizado por Swann Arlaud e centrado na Resistência Francesa durante o regime de Vichy.
A Câmara de Ouro, dedicada a primeiras obras, distinguiu “Benimana”, da realizadora ruandesa Marie-Clementine Dusabejambo. O filme acompanha Vénéranda, sobrevivente do genocídio contra os tutsis em 1994, que trabalha em processos comunitários de justiça e reconciliação no Ruanda contemporâneo.
Júri opta pela divisão
Na categoria de realização houve um raro empate. O prémio foi dividido entre o polaco Pawel Pawlikowski, por “Fatherland”, e os espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, responsáveis por “La Bola Negra”.
O novo filme de Pawlikowski acompanha a viagem de Thomas Mann, interpretado por Hanns Zischler, e da sua filha Erika, vivida por Sandra Hüller, pela Alemanha do pós-guerra. A deslocação culmina na atribuição do Prémio Goethe ao escritor, duas décadas depois de ter recebido o Nobel da Literatura, num gesto que o filme apresenta como símbolo de reconciliação entre o autor de “A Montanha Mágica” e “Morte em Veneza” e o país que abandonou durante o nazismo.
Já “La Bola Negra” é um drama épico que cruza três períodos históricos, 1932, 1937 e 2017, para explorar temas como homossexualidade, desejo e memória histórica. O filme inspira-se na única peça inacabada de Federico García Lorca protagonizada por uma personagem assumidamente homossexual.
Também os prémios de interpretação foram atribuídos ex aequo. Entre os actores venceram o francês Valentin Campagne e o belga Emmanuel Macchia, ambos distinguidos por “Coward”, do realizador belga Lukas Dhont.
Ambientado em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o filme acompanha Pierre, um jovem soldado destacado para a frente belga que, em meio às trincheiras e ao desgaste do conflito, conhece o carismático Francis. Juntos, ao lado de outros militares, os dois decidem montar uma revista teatral como forma de resistir à brutalidade da guerra e preservar algum sentido de humanidade.
Já os prémios femininos foram entregues à belga Virginie Efira e à japonesa Tao Okamoto, protagonistas de “All of a Sudden”, novo filme de Ryusuke Hamaguchi.
O drama acompanha a directora de um lar de idosos nos subúrbios de Paris que tenta implementar uma técnica de cuidados humanizados conhecida como Humanitude, enfrentando resistência da equipa e da própria instituição. A sua vida sofre uma transformação ao conhecer Mari Morisaki, uma dramaturga japonesa em estado terminal.
Vencedores da 79.ª edição do Festival de Cannes
Palma de Ouro: Fjord, do realizador romeno Cristian Mungiu
Grand Prix: Minotaur, do realizador russo Andrey Zvyagintsev
Prémio do Júri: The Dreamed Adventure, da realizadora alemã Valeska Grisebach
Melhor realização: os espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, por La Bola Negra, e o polaco Pawel Pawlikowski, por A Terra de Meu Pai
Melhor actor: o francês Valentin Campagne e o belga Emmanuel Macchia, por Coward
Melhor actriz: Virginie Efira e Tao Okamoto, por All of a Sudden
Melhor argumento: Emmanuel Marre, por A Man of His Time
Câmara de Ouro: Benimana, da realizadora ruandesa Marie-Clementine Dusabejambo
Palma de Ouro de Curta-Metragem: For the Opponents, do realizador argentino Federico Luis
