Entre dia 12 e 22 de Março, a MONSTRA esteve presente em diversas salas de Lisboa a apresentar do melhor que o cinema de animação tem para oferecer este ano. Felizmente, a MONSTRA continua connosco para além destes dias do festival através da Filmin, que, até dia 23 de Abril, disponibiliza algumas das obras que passaram no festival. Aqui recomendo 5 curtas que podem ser vistas e mais me marcaram durante o festival. A partir daqui, há ainda mais para descobrir disponível na plataforma de streaming.
Safo – realizado por Rosana Urbes, vencedor do Grande Prémio MONSTRA da Competição de Curtas Metragens
Misturando várias técnicas de animação, esta é uma curta de beleza indescritível que nos mergulha na lírica de Safo. Reconhecendo a história de apagamento ao longo dos séculos de uma das poetisas mais influentes da Grécia Antiga, Rosana Urbes reconstrói um imaginário feminino e lésbico que se foca na beleza da natureza e do corpo. Através de uma animação delicada e que utiliza materiais naturais, esta poesia milenar ganha vida de uma forma comovente e quase eufórica. A forma como as imagens casam com a sonoridade e a lírica nesta curta tornam-na certamente num dos filmes mais marcantes do festival. É quase como um convocação do espírito de Safo.
Ouvido de Cão – realizado por Péter Vácz, vencedor do Grande Prémio MONSTRA da Competição de Médias Metragens
Uma história simples mas que revela cicatrizes por baixo da superfície, acompanhamos Berci sozinho em casa depois da escola. No meio de um contexto familiar atribulado, as emoções de Berci vão se revelando ao longo da curta de forma imaginativa e tempestuosa. No centro desta curta está a sua relação com o cão de família e a forma como esta ajuda-o a libertar as suas emoções. Inicialmente, Berci imita a violência dos seus pais mas, lentamente vai entendendo a origem das suas cicatrizes emocionais à medida que se liberta através das brincadeiras com o cão. Somos envolvidos num mundo de imaginação e catarse, numa curta que se apresenta de forma simples mas com profundidade emocional.
A Ursa e o Pássaro – realizado por Marie Caudry, vencedor do Grande Prémio MONSTRINHA
Uma curta que é tanto para miúdos como para graúdos, aqui seguimos a jornada de uma ursa para encontrar o seu amigo pássaro que migrou no início do inverno. Com a simplicidade e ingenuidade da animação infantil, algo de profundamente tocante pode ser encontrado aqui por qualquer público, o que mostra a força desta curta. É uma história sobre amizade, amor e auto-descoberta que nos leva por uma viagem maravilhosa por um mundo desconhecido e populado por personagens cheias de personalidade, mesmo as que aparecem só por momentos.
Adeus Ondas – realizado por Ruihan Yang, Menção Especial da Competição de Curtas Estudantis
Como um sonho suave, a viagem aqui é por um plano onírico de sensações. O som e a imagem são companheiros de uma reflexão de uma mulher à espera de algo. Mais uma aparição fantasmagórica do que um filme, existindo no seu próprio ritmo e levando-nos, se para tal estivermos disponíveis, por uma reflexão labiríntica.
Joko – realizado por Izabela Plucinska
Com uma animação grotesca, nesta curta de humor tétrico acompanhamos a vida de um jovem operário que começa a trabalhar transportando clientes ricos às costas. Lentamente, este trabalho começa a ter consequências físicas no corpo de Joko. Esta é uma curta que ao início nos causa repulsa pela natureza da sua animação, mas, lentamente, percebemos que isto apenas reflete a fealdade dos sistemas de opressão do capitalismo. Através desta história macabra e desta estética, a verdadeira natureza deste sistema em que vivemos é revelada. Esta é uma curta divertida que no entanto nos inquieta e faz refletir sobre a opressão do trabalho e a forma como esta nos molda física e psicologicamente.
