Cada musical tem a sua personalidade: mais cómica, mais romântica, mais trágica, mais puramente dedicada à estética da coreografia. Revisitar os Grandes Géneros é uma proposta para irmos revisitando o cânone que se estabelece em torno de certas categorias de filmes – como a ficção científica, o melodrama, a comédia ou o western, que teve destaque nos nossos ecrãs o ano passado – e programar uma nova lente através da qual encarar todo um estilo cinematográfico. Em junho (e julho), o projeto é reconsiderar o musical. Este é um dos géneros mais expressivos do cinema, juntando a narrativa à música, à dança e, sobretudo, à possibilidade de as emoções – sejam elas conflitos, fantasias ou tensões sociais – se expressarem através da performance: as personagens de um musical cantam e dançam porque a intensidade da emoção, ou da ação, é aguçada demais e tem de irromper. Assim, o ciclo Revisitar os Grandes Géneros: O Musical leva o espectador numa exploração da evolução deste género, da relação entre o cinema e outras artes, da forma como este levou a inovações tecnológicas ou da maneira como se metamorfoseou em diferentes países do mundo.
Esta exploração começa no dia 1 de junho com uma tarde dedicada a Marilyn Monroe no dia do centenário do seu nascimento, com a exibição de THERE’S NO BUSINESS LIKE SHOW BUSINESS, de Walter Lang (cujo título e ethos dá o mote ao ciclo), e LADIES OF THE CHORUS, de Phil Karlson. Seguem-se 29 títulos (com várias primeiras passagens e com filmes que não são exibidos há 40 anos na Cinemateca) onde o desafio é evitar a repetição de autores e de obras exibidas recentemente (com exceções, como manda a regra), mas também evitar seguir uma cronologia limitativa, sendo que o programa dança pelas décadas com agilidade e intenção. Da experiência revolucionária de HALLELUJAH (1929), de King Vidor, aos números aquáticos de Esther Williams em BATHING BEAUTY, ensaiamos depois um plié pelo primeiro talkie de Lubitsch com Maurice Chevalier, em THE LOVE PARADE, seguido de um sauté até Espanha (LA VERBENA DE LA PALOMA, de Benito Perojo) e outros à Alemanha (DIE DREIGROSCHENOPER, de Georg Wilhelm Pabst, e não só), à então URSS (VESIOLYE REBIATA, de Grigori Alexandrov, e não só), ao Egipto (ENTA HABIBI, de Yousef Chahine) ou à China (TIAN XIAN PEI, de Shi Hui), retornando, depois, a Portugal (O PÁTIO DAS CANTIGAS, de Francisco Ribeiro).
Esta variada seleção de filmes em que as pessoas “começam a cantar e a dançar” aponta ainda o seu chassé na direção da Judy Garland de MEET ME IN ST. LOUIS, da Barbra Streisand de FUNNY GIRL e da Shirley Temple de LITTLE MISS BROADWAY, sem esquecer um tríptico com Gene Kelly: ON THE TOWN (que também realiza, com Stanley Donen), SO THIS IS PARIS e COVER GIRL. O mês termina como deve terminar um musical, com um ponto de exclamação – a exibição de OKLAHOMA!, de Fred Zinnemann.
