Atlas: uma escalada emotiva abre o concurso na Festa do Cinema Italiano

3 estrelas Críticas Festa do Cinema Italiano
“Atlas” é a segunda longa-metragem de Niccolò Castelli, e vai ser o primeiro filme em concurso apresentado na Festa do Cinema Italiano (exibições nos dias 2 e 6 de Abril).

Allegra (Matilda De Angelis) é uma rapariga que mora na Suíça Italiana e tem uma paixão pela escalada. Com o seu namorado Benni (Nicola Perot), a sua amiga Sofia (Anna Manuelli) e o seu namorado Sandro (Kevin Blaser) projectam uma viagem para Marrocos para escalar as montanhas do Atlas. Uma tragédia vai acontecer e mudar a vida de Allegra.

O filme é centrado numa perda e a elaboração do luto por causa de uma tragédia que só vem explicada depois da primeira hora do filme. A melhor coisa do filme é a protagonista Matilda De Angelis, que tem apenas 26 anos e já tem uma promissora carreira internacional (tem um papel importante na série “The Undoing” da HBO e na série “Leonardo” sobre o grande pintor e inventor italiano).

Com base numa história verídica, “Atlas” foca-se na recuperação física e emocional de Allegra, uma rapariga que no início do filme parece muito extrovertida e com muita energia, e que depois da tragédia muda completamente. O seu dia-a-dia torna-se difícil e duro, porque para além de ter que recuperar fisicamente, o mais difícil será a recuperação das feridas ‘emocionais’ e voltar a ter uma vida normal. O realizador prefere mostrar esta ‘escalada’ recusando palavras e explicações rápidas, focando-se nos silêncios, nos olhares e nos pequenos gestos.

O próprio realizador explica a preparação do filme e a escolha da actriz principal: “Conheci a rapariga que sobreviveu à tragédia (que mostra no filme, NDR) e passei por uma longa jornada de escrita e pesquisa. Na Bélgica conheci outras vítimas e outras pessoas que sofreram traumas. Então conheci a Matilda De Angelis e percebi que ela encarnaria perfeitamente essa personagem porque entendia as emoções dela”.

Filmado em Lugano, na Suíça italiana, em Trentino, nas Dolomitas na fronteira com o Vêneto, e em outras áreas da Suíça, o filme não segue estrictamente a cronologia dos acontecimentos, mas relata as memórias de Allegra de forma dispersa. A fragmentação temporal do filme consegue criar uma tensão muito forte mas é também a principal limitação deste trabalho. Talvez a revelação da tragédia chegue tarde demais (60 minutos) e alguns espectadores já possam estar perdidos nesse tempo. A habilidade de Matilda De Angelis é a de conseguir manter o interesse criando uma personagem complexa que transmite muito bem a sua vitalidade e fragilidade ao mesmo tempo. Outro ponto forte do filme é a localização, as Alpes e a Suíça italiana e alemã, que raramente aparecem no cinema italiano.

Dei três estrelas ao filme porque não o considero perfeitamente bem-sucedido na gestão da temporalidade, e algumas cenas iniciais não têm o significado que deveriam ter sem conhecer as razões da tragédia. Por esse motivo não vou dar ‘spoilers’ sobre isso, para respeitar a escolha do realizador de deixar os espectadores na dúvida. Recomendo o filme para quem ainda não conhece a Matilda De Angelis que é uma actriz muito interessante no actual panorama do cinema italiano.

Classificação: 3 em 5 estrelas. Texto escrito por Gianmaria Secci.

 

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