Fala Comigo - 3 estrelas - Crítica de Baldaia

Fala Comigo: luto e assombro

3 estrelas Críticas

Mais um Outubro, mais uma época de Halloween, mais uma oportunidade para falar sobre filmes de terror! A mais recente entrada no Top 5 da Box Office Mundial do estúdio A24, Fala Comigo, dos gémeos australianos Michael e Danny Philippou, já é um dos filmes de terror mais bem-sucedidos de 2023. No filme, um grupo de amigos descobre como conjurar espíritos usando uma mão embalsamada. Mia tenta superar as saudades da mãe que morreu e alinha na brincadeira aparentemente inocente que os levará para o mundo sobrenatural.

Contudo, aqueles que decidirem visualizar o filme “às cegas”, ou seja, sem se informar acerca da sua premissa, apenas descobrirão este mundo numa fase mais tardia do filme, aquando dos protagonistas. Sim, os gémeos Philippou mostram autocontrolo no revelar da sua mão, qualidade que nem sempre está presente nos filmes de género, especialmente quando se trata de uma longa-metragem de estreia.

A cena de abertura é um amuse-bouche perfeito em duração, conteúdo e forma. O tracking-shot contínuo com câmara à mão transmite um estado frenético, algo que, posteriormente, é gradualmente construído ao longo do filme. O tempo e o local da cena também informam o espectador. Remetem para a cultura de festas caseiras dos jovens e para a penumbra da noite – esconderijo das entidades que, mais cedo ou mais tarde, se farão notar. A sequência alcança o seu clímax numa tentativa de assassinato-suicídio que, em retrospetiva, é uma consequência direta dessas entidades. Contudo, como mencionado previamente, os gémeos Philippou guardam o trunfo sobrenatural, levando a que o espectador atribua a causa do ato violento ao debilitado estado mental do personagem.

No fundo, Fala Comigo é sobre isto mesmo, a alteração do estado psicológico (causada pelos fantasmas conjurados). A correlação entre doenças mentais e o mundo sobrenatural em cinema é comum, contudo, o avilanar de personagens com saúde mental debilitada – ou, neste caso, a sua associação a entidades vilãs – atribui uma conotação negativa à discussão. Vindo de alguém inserido nessa discussão a nível pessoal, confesso que o meu apreço por filmes de género – mais especificamente por filmes de terror – e o meu interesse pela exploração da psique humana em cinema levam a que não consiga resistir a este tipo de histórias. Depressão, ansiedade, transtornos de personalidade, ideação suicida, luto, temas que acarretam consigo um peso e energia perfeitos para uma narrativa aterrorizante. Os contornos das condições ou dos estados anteriormente mencionados são por vezes tanto ou mais misteriosos do que qualquer elemento sobrenatural de um dado filme, exponenciando o medo do desconhecido no espectador. Por um lado, o terror do desconhecido mundo sobrenatural – um terror artificial, com origem na suspensão da descrença – por outro lado, o terror do desconhecido mundo psicológico – um terror real, com origem no receio da vulnerabilidade da psique humana.

No entanto, estes dois terrores não se encontram presentes nos primeiros minutos de Fala Comigo. O filme segue a estrutura narrativa cinematográfica típica, mostrando as personagens no seu “mundo normal” antes do evento desencadeador da ação. Faz-se a introdução das personagens e estabelecem-se as dinâmicas familiares, românticas e sociais que vão ser fundamentais para o desenrolar da história e para a escalada da sequência de obstáculos. A criação de uma base sólida do mundo e das personagens que nele habitam é especialmente importante em filmes de género com elementos de fantasia. Esta estrutura estipula as regras do universo fílmico e dá ao espectador informação necessária para entender futuros comportamentos, decisões, hesitações e riscos que as personagens correm em cenários transcendentes àqueles da nossa realidade.

Mas o “mundo normal” de Fala Comigo não é um mar de rosas. O início do filme revolve em torno de morte, dor (física, bem como mental) e luto, um dos temas centrais do filme. Mia, a protagonista, perdeu a sua mãe Rhea há dois anos e o aniversário da morte faz com que este assunto, mais do que habitual, lhe esteja presente na memória. O luto está firmemente assente no terror do desconhecido – a variedade de mecanismos a que a mente recorre para lidar com a perda de alguém é deveras abrangente.

Segundo o Modelo de Kubler-Ross (1969), o processo de luto é composto por: negação e isolamento; revolta; negociação ou contrato mágico; depressão; e aceitação. No primeiro ato do filme, Mia aparenta estar na fase de aceitação, falando abertamente da morte da mãe e das saudades que sente. Contudo, quando Mia reconta os últimos momentos de vida de Rhea, torna-se evidente que ela ainda se encontra na fase de negação relativamente às circunstâncias da morte. Na fase de negociação, também designada de contrato mágico – nomenclatura mais apropriada para o contexto do filme – a pessoa em luto apega-se a algo na esperança de aliviar a dor da perda. Quando crenças espirituais estão em jogo, é frequente haver um maior compromisso para com as práticas religiosas, como por exemplo: “quero tanto melhorar que prometo ir sempre à missa. Deus valorizará a minha mudança e ajudar-me-á”. Em Fala Comigo o contrato mágico traduz-se no apego que Mia ganha pela Mão, crente de que a convivência com o fantasma da mãe irá preencher o vazio que a sua morte deixou.

Esta dinâmica cimenta a ligação entre o estado mental da personagem e o efeito que o elemento sobrenatural do filme tem sobre ela – Mia está em luto pela mãe e tem saudades dela, o que a leva a procurar a ajuda dos espíritos para a conjurar, o que influencia a sua passagem para diferentes estágios do processo de luto. Confusão, sensação da presença do outro, automatismos, alucinações – cognições possíveis do estado de luto que, no filme, surgem como consequència do contacto fatídico com o mundo espiritual. Devido ao contrato mágico que a Mia faz com os fantasmas, eles usam o seu luto para a manipular e transformam a memória da sua mãe numa assombração. Em Fala Comigo a assombração é real e o desfecho da história da Mia é uma consequência direta dela, contudo, esta assombração é passível de ser comparada à passagem do estado de luto a um estado de perturbação de humor depressivo, uma realidade que pode ter um desfecho tanto ou mais trágico do que o do filme.

São várias as ferramentas cinematográficas utilizadas para representar este processo, as quais trabalham em conjunto com o intuito de evidenciar o agravamento da situação. Quando se inicia o ritual, os espíritos são mostrados visualmente antes de possuírem a personagem responsável pela conjuração. Contudo, quando “Rhea” é evocada – o motivo das aspas será óbvio para aqueles que já visionaram o filme – o espectador é colocado na perspetiva de Mia: não vê o fantasma, apenas ouve uma imitação da voz maternal e triste de “Rhea”. Este desvio do registo habitual do filme é a primeira indicação de que algo significante está prestes a ocorrer e permite ao espectador atento prever a reação da protagonista. Compreensivelmente, ela voltará a tentar conjurar a mãe, uma decisão que, por mais perigosa que seja, qualquer membro da audiência conseguirá compreender e até mesmo defender. Da presença sonora passamos à presença visual – Mia tem vislumbres da silhueta da mãe, aliciando-a a repetir o ritual. A etapa seguinte é a alteração do aspeto da aparição de “Rhea”, algo de que a Mia não se apercebe, pois está ela própria a sofrer uma alteração, no seu caso mental.

No início deste texto foi mencionada a importância de uma base sólida em histórias que envolvem elementos sobrenaturais. No filme em questão essa base consiste nas personalidades das personagens, na forma como elas se inter-relacionam e nas decisões que tomam, mas também consiste nas regras do ritual de conjuração. Acender a vela, agarrar a mão, dizer “Fala Comigo”, dizer “Deixo-te entrar”, ser possuído durante cerca de 90 segundos, largar a mão, apagar a vela. Uma sequência relativamente simples e que permite explicar a assombração da Mia – o ritual por ela preformado não respeitou as regras. Contudo, com o decorrer do filme as regras do ritual são constantemente contrariadas e até mesmo descartadas. Descobrimos que os espíritos mentem e que se fazem passar por outras pessoas, o que põe em causa a agência das personagens, pois estas tomam decisões desinformadas ou com base em informação falsa. O abandono de determinadas regras previamente estabelecidas acontece pela necessidade de criar conflito, dando-se a valorização da progressão da história à custa da coerência da narrativa.

Por fim, o desfecho do filme deixa algo a desejar. Os gémeos Philippou fazem uso do elemento sobrenatural para criar discordância e drama, mas, como já foi mencionado, são as personagens que têm controlo maioritário do desenrolar da ação. Contudo, certos eventos-chave do filme são previstos pela protagonista no primeiro ato, o que quebra o fluxo de causa-efeito da narrativa e lhe atribui uma natureza premeditada. Como por exemplo, a Mia tem um pesadelo que, mais tarde, descobrimos ser uma premonição da sua morte. Isto, por si só, não é um aspeto negativo, contudo, não é dada uma explicação sobrenatural (nem tão pouco natural) para este elemento narrativo que é fulcral para o impacto do clímax. Como consequência, em vez de se focar no que está a acontecer, o espectador foca-se no porquê daquilo que está a acontecer.

Suicídio está explicitamente presente na cena de abertura, apesar de ser despromovido para o background durante grande parte do filme filme. As circunstâncias da morte de Rhea são tema frequente de conversa, havendo a implicação de suicídio, mas sem uma confirmação verbal ou visual. Eventualmente, o pai da Mia lê-lhe a nota de suicídio da Rhea. Mia é confrontada com a realidade – a qual tem dificuldade em aceitar mas que sabe, no fundo, ser verdade (negação) – e o espectador tem a prova de que Rhea, de facto, se suicidou. Está comprovado que aqueles cujo pelo menos um dos pais cometeu suicídio têm maior probabilidade de considerar fazer o mesmo e creio que Fala Comigo usa intencionalmente este facto como fundamentação do guião. Deste modo, se tivermos em conta as temáticas do filme, é possível traduzir o pesadelo da Mia em ideação suicida. Quando explica o seu pesadelo, a Mia fá-lo de forma objetiva e literal, sem lhe associar nenhum contexto ou capacidade premeditada. Apenas mais tarde, quando acompanhamos a Mia na sua chegada ao mundo sobrenatural do pós-vida, é que percebemos – em conjunto com a personagem – que ela havia sonhado com a própria morte. De forma semelhante, a ideação suicida está frequentemente latente, sendo necessária uma avaliação mais detalhada dos comportamentos, pensamentos e crenças do indivíduo. Reforçando, tematicamente, o pesadelo de Mia funciona como analogia de ideação suicida, contudo, no que toca à história do filme, esta peça não encaixa no puzzle como deveria.

Fala Comigo é uma ótima primeira longa-metragem, com um estilo de realização bem definido e eficazmente aterrador. Apesar de não encontrar o balanço certo entre mensagem e história, é um filme que vale a pena ver para entrar no espírito do mês do Dia das Bruxas.

Classificação: 3 em 5 estrelas. Texto escrito por Baldaia.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *