Jeanne Dielman - 5 estrelas

Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1808 Bruxelles: O Poder do Cinema Feminista de Chantal Akerman

5 estrelas Críticas

Acordar. Fazer o pequeno-almoço. Acordar o filho. Preparar o jantar. Comer qualquer coisa para o almoço. Cuidar do apartamento. Esperar que o filho chegue da escola. Comer o jantar. Ler. Ouvir rádio. Dormir. Uma rotina cinzenta do dia-a-dia de uma dona de casa solitária. O seu nome é Jeanne Dielman, e a sua morada é 23 quai du Commerce, 1808 Bruxelles. É viúva e vive sozinha com o seu filho adolescente. Os dias passam lentamente e solitários. Afazeres seguem-se de afazeres, um certo conforto presente na ausência de reflexão no quotidiano. Mas algo se agita dentro dela. Algo inquieto na quietude da normalidade diária. O quão fácil este normal pode ser interrompido? Pacientemente e atentivamente, Chantal Akerman guia-nos por três dias na vida desta mulher.

Contrariando a tradição cinematográfica, dominada pelo olhar masculino, Akerman desvia o seu olhar do grande espetáculo – do entusiasmante – para o pequeno e detalhado “des-entusiasmante”. Seguimos cenas prolongadas em que vemos Jeanne Dielman, interpretada por Delphine Seyrig, a realizar tarefas mundanas, como cozinhar, limpar, ou fazer compras, e somos levados a observar estas ações que, de outra forma, não observaríamos. A quietude e a repetição tornam-se quase hipnóticos enquanto seguimos o quotidiano de Jeanne, tornando-nos atentos a qualquer nuance e mudança que possa ocorrer – e as suas consequências.

Lentamente, enquanto observamos esta mulher, notamos uma inquietude nela, que progride ao longo do filme. Ao observarmos esta mulher no seu mundano, entramos na sua psicologia de uma forma profunda. Esta inquietude leva a pequenas mudanças no quotidiano que, apesar de pequenas, no contexto do filme se tornam eventos explosivos. Esquecer de fechar uma tampa, a queda de uma colher, batatas que ficam demasiado cozidas – tudo isto são eventos que se tornam fontes de uma tempestade silenciosa que suga o espectador para este filme e esta personagem.

A escolha de se focar na vida de uma dona de casa solitária e na sua inquietação interna e existencial, não só torna este filme num manifesto cinematográfico, contrariando a ideia de que o cinema é a vida sem as partes aborrecidas, focando-se na realidade crua e enfadonha, mas também num manifesto feminista, em que o espectador é focado numa narrativa que normalmente está relegada ao pano de fundo de histórias masculinas. Delphine Seyrig, enquanto Dielman, é o foco central do ecrã e da narrativa e, através de uma performance contida, consegue transmitir ao espectador a tormenta que se desenvolve por baixo do que aparenta ser banal.

A natureza monótona do filme cria um certo sentimento de ansiedade claustrofóbica que aumenta ao longo do filme, fazendo o espectador vestir a pele de Jeanne Dielman com eficácia. Akerman captura este sentimento de uma forma crua, realçando o realismo áspero de cada momento, certificando-se que sentimos cada segundo que passa. Não existe escape da monotonia. O espectador é envolvido pela realidade sem filtros de uma dona de casa solitária comum, e é isto que torna este filme uma experiência tão única e provocadora. É um filme em que o espectador tem que estar preparado para mergulhar numa narrativa rarefeita que não tem de todo o objetivo de fornecer entretenimento, mas que nos envolve em si de uma forma magistral. Jeanne Dielman é um filme raro e silenciosamente revolucionário, em que a atenção ao detalhe de Akerman é inigualável, em que um sentimento elevado de realidade assalta-nos com uma eficácia tremenda. É sem dúvida, um feito cinematográfico histórico, com repercussões até aos dias de hoje.

O filme foi considerado o melhor filme da história do cinema segundo a Sight & Sound. A obra-prima de Chantal Akerman está disponível na FILMIN em versão restaurada.

Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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