Crítica: De Bicicleta / Três estrelas por M. Filipe

De Bicicleta – Um filme em que o luto faz-se à pedalada

3 estrelas Críticas Festa do Cinema Francês

Após o sucesso alcançado no seu país de origem (mais de meio milhão de espectadores em França) e no circuito de festivais (premiado no Festival de Cinema de Angoulême e vencedor do Prémio do Público na edição deste ano da Festa do Cinema Francês), eis que chega finalmente às nossas salas De Bicicleta. Nesta sua segunda longa-metragem o ator e realizador Mathias Mlekuz, apresenta um filme dentro do registo de docuficção em que o espectador segue o próprio e o seu amigo de longa data, o também ator Philippe Rebbot, numa aventura inusitada. Após a morte trágica do filho de Mathias, Youri, os dois amigos decidem refazer juntos, a última viagem que o mesmo havia realizado e que havia documentado em livro. O ponto de partida é La Rochelle, sendo o destino final Istambul. Acompanhados pelo cão Lucky de Mathias, esta será uma viagem que será transformadora para ambos, levando a que descubram muito sobre si mesmos, a amizade que os une e o valor da conexão e empatia inesperadas que podem surgir com qualquer pessoa, em qualquer momento, em qualquer parte do mundo.

Apesar do tom leve e bem-humorado que está presente ao longo de todo o filme, o espectador presencia os altos e baixos de toda esta jornada. Na cena de abertura, Mathias e Philippe confessam os seus receios, a amigos e familiares, relativamente ao desafio físico extenuante que se avizinha. Ambos homens de meia-idade, têm noção que nem um, nem outro, cultivaram em anos recentes muitos hábitos saudáveis e que nenhum se destaca pelo seu atletismo. Ainda assim, unidos pela sua amizade, estes ciclistas amadores grisalhos decidem percorrer o longo trajecto outrora percorrido por Youri.

Pelo caminho cruzam-se com diversos indivíduos, sendo que alguns são atores que interpretam personagens inspiradas em pessoas com quem Youri se cruzou quando fez a sua viagem. A comédia do filme surge de várias formas e em diferentes registos, sendo que nestes momentos a aptidão que ambos os atores possuem para a improvisação, aliada ao inglês de principiante de ambos, dá origem a momentos hilariantes e muito caricatos. Uma conversa com a dona de um Airbnb em Viena, em que a mesma impõe inúmeras regras aos nossos protagonistas, acaba por ser um dos momentos mais divertidos do filme. A utilização a certa altura do Tradutor do Google, só aumenta ainda mais o valor cómico da sequência.

Imagem/still do filme 'De Bicicleta' © MES Productions
Imagem/still do filme ‘De Bicicleta’ © MES Productions

Dito isto, o maior trunfo do filme é mesmo a amizade entre Mathias e Philippe. Este não é um documentário com confissões inesperadas ou em que segredos antigos são finalmente revelados. Ao invés disso, estamos perante uma longa-metragem que segue uma jornada, com uma óbvia componente terapêutica, que ocorre para tentar compreender a partida de Yuri e para homenagear a sua vida e o seu legado. Os nossos protagonistas têm várias conversas em que dialogam com muita franqueza sobre o luto, os deveres de uma figura parental e a inevitabilidade da morte. Ainda assim, os momentos mais ternurentos e emotivos do filme acabam por ser aqueles que culminam com um gesto ou uma troca de olhares. Uma cena em que Mathias e Phillipe estão simplesmente sentados em silêncio, com um convidado inusitado, no sofá de um Airbnb em Istambul deixará poucos espectadores indiferentes.

Olhando para a sociedade atual, em que o poder e influência da manosfera e dos seus intervenientes parecem não parar de crescer, um filme como De Bicicleta é ainda mais valioso e importante. Estamos perante uma longa que se foca em dois homens adultos, unidos por uma amizade assente numa comunicação aberta, saudável e genuína, em que nenhuma reação ou emoção é considerada menor ou indigna de um indivíduo do sexo masculino. Histórias de amizades masculinas, fictícias ou verídicas, com estas características vão ser cada vez mais necessárias e importantes, para espectadores de todas idades e de todos os géneros nos anos que se avizinham. Independentemente desta sua componente sociológica, o que importa realçar é que estamos perante um filme genuíno, sincero e muito engraçado sobre o caráter poderoso e precioso da amizade, que deverá ser do agrado de muitos espectadores.

Classificação: 3 em 5 estrelas. Texto escrito por M. Filipe.

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