O universo cibernético de Tron está de volta com Tron: Ares que é uma bela adição ao franchise, mas tem elementos que podem não despertar a curiosidade que merecia.
Este franchise está marcado pelas inovações tecnológicas que trouxe ao cinema. O primeiro Tron foi o primeiro com cenários completamente digitais e o segundo foi um marco no uso de tecnologia para fazer um ator parecer mais novo. Este novo capítulo, no entanto, não trouxe nenhuma inovação nesse campo que o ajudasse a se promover. Por outro lado, isso faz com que o foco não esteja na proeza dos efeitos especiais, mas nas personagens e na história, algo que faltou nos anteriores. Ou eram demasiado complexos pelos termos de computadores demasiado avançados para o comum mortal na altura, ou demasiado simples que não causavam grande impacto emocional. Contudo, Tron: Ares consegue equilibrar todos os elementos de ficção cientifica com o lado humano das personagens.
O principal foco está na personagem Ares, interpretada pelo Jared Leto que quando foi anunciado, por muito que eu goste deste franchise, deixou-me um bocado de pé atrás. Ele faz os mínimos com a personagem, não traz nada de interessante, nada que a faça destacar e é muito monótono durante todo o filme. Parece que ser um idiota e enviar malware para os seus colegas não ajudou assim tanto na construção da personagem. O que a salva é a escrita. A abertura do filme foi uma bela forma de nos mostrar o nascimento e a evolução da personagem, para percebermos as suas motivações de uma forma mais orgânica. É algo que eles podiam ter explicado em três linhas, mas é muito mais eficaz mostrá-lo, mesmo que seja só numa montagem sem diálogo. Mesmo a transformação do Ares de programa para “humano” teve um progresso muito bem construído. A mesma coisa com a Athena, que tem uma experiência semelhante, mas resultados diferentes. Essa dualidade entre as duas personagens é um pequeno aspeto da narrativa que nos faz refletir e apreciá-la mais.
Essa é a grande força do filme. Facilmente nos conseguimos perder nas sequências de ação e efeitos especiais, que são ambos incríveis, mas depois vão-nos sendo dados pequenos momentos com as personagens que as enriquecem e nos fazem investir nelas. Este é um filme que não subestima o seu público. Nada nos é dado de bandeja, os momentos de desenvolvimento de personagem são subtis e não tem cenas de exposição para nos mostrar a construção que faz com base nos filmes anteriores. Essa continuação pode não ser muito óbvia, e exigir um bom conhecimento do que veio antes, mas as peças estão lá todas para nós completarmos o puzzle sozinhos.
O único elemento que põe isto em causa, foi aquele que provavelmente vai atrair mais pessoas ao cinema. A cena com o Jeff Bridges é, infelizmente, a pior cena do filme. O facto de voltarmos à Grid do original foi giro. A recriação dos efeitos do primeiro filme com a tecnologia de hoje em dia e todas as referências presentes, são a melhor parte dessa cena. Mas depois, o que leva o Ares até lá, para mim não fez muito sentido porque não me parece que haja razão nenhuma para aquilo que ele está à procura esteja ali, e a cena com o Flynn tenta ser demasiado filosófica ao ponto de 80% não fazer sentido ou ser sobre nada. Foi um momento de pura nostalgia, que ficou muito aquém do que poderia ter sido.
Outro ponto forte deste filme é a banda sonora dos Nine Inch Nails. É muito reminiscente da do Tron: Legacy, e apesar de ser incrível, não tem o mesmo impacto que a dos Daft Punk teve. Não sinto que tenha elevado muito filme, ou sido um contributo tão grande para a sua atmosfera como aconteceu no Legacy, mas nas perseguições fez-se notar e bem.
Este filme deixa muita coisa em aberto para uma possível sequela, mas não apostaria muito que se vá concretizar. Este é um franchise de culto, o que significa que não vai atrair as massas e exige um grande esforço financeiro. Apesar disso, eles continuam a fazê-los por isso, nunca se sabe.
Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por Arknel Marques.
