Festival CineEco 2026

From Seia with Love

Artigos CineEco

O Festival CineEco, no coração de Seia, bem ao lado da Serra da Estrela, já vai na edição número 32, sendo assim um dos Festivais de Cinema mais antigos de Portugal. Com este estatuto (e idade) existe toda uma responsabilidade para com o ambiente cinematográfico e festivaleiro nacional, e o CineEco consegue cumprir na perfeição ao que vem e o que propõe, não só a nível geral de Cinema de qualidade, como também a nível de Cinema Ambiental no seu coração e génese.

Foi a primeira vez que tive a oportunidade de visitar por dois dias este certame, e só peco por não ter conseguido estar presente em edições passadas. Digo isto por diversas razões, seja por toda a hospitalidade numa localização idílica, seja também pela conjugação de uma proposta que consegue superar as expectativas de qualquer pessoa, ao unir de forma simbiótica Cinema e Natureza. Sentimos que quando termina uma sessão e saimos da sala de exibição, o filme continua a rodear-nos. Agora, não nos encontramos mergulhados na sua história, mas sentimo-nos ainda envolvidos muitas vezes pela mesma atmosfera e paisagens. E isso foi desde logo muito presente com o filme de arranque da secção competitiva, o documentário O Avesso do Mundo, da realizadora Rita Palma, que representou uma excelente escolha por conter uma multiplicidade temática, desde uma história bastante pessoal que atravessa a longa história e momentos que marcaram as Minas da Panasqueira, como também pela discussão que levantou a diversos níveis após a exibição do filme, como que uma cápsula do tempo que fora aberta naquela sessão.

O filme que deu início à competição internacional foi On The Sea da realizadora Helen Walsh, em estreia nacional, que voltado para uma paisagem pesqueira mais longínqua, conseguiu trazer um outro foco de conversas e temáticas, começando-se assim a desenhar a pluralidade que este Festival tem e o seu interesse em diversos pontos de vista e histórias, que têm sempre como pano de fundo o ambiente e a natureza com que nos rodeamos, assim como a sua falta também. Neste drama de ficção o volfrâmio dá lugar ao mexilhão e a trama ganha outros contornos, com um núcleo familiar mais disforme onde cada personagem tem a sua própria dinâmica narrativa e a sua procura por redenção e perdão. No centro deste polvo de emoções e histórias encontra-se Jack, que vê a sua vida se transformar por completo com a entrada na sua vida de Daniel. Um drama queer ambicioso que prova a sua força ao não ser nada cliché, muito pelo contrário, e ao transparecer uma sensibilidade enternecedora.

O panorama muda, uma vez mais, através de uma programação que saltita entre géneros e explora diferentes tipos de público, desde uma comédia francesa que foi apresentada como um ‘thriller rural’ passando para uma adaptação (ou será mais uma efabulação) animada do livro ‘Animal Farm’ do autor George Orwell, com um elenco vocal bastante hollywoodesco. Em A Praga, de Sarah Arnold, surge um cenário de guerra que opõe agricultores e caçadores, numa comédia que agradou bastante o público, com uma intenção mais positiva e agradável em comparação com as propostas apresentadas anteriormente. Já em Quinta dos Animais, filme de Andy Serkis que foi exibido numa Sessão Especial e para uma plateia maioritariamente infantil, que praticamente esgotou o Cine-Teatro, assistimos a uma fábula satírica que tenta o seu melhor para conseguir misturar de forma dinâmica um tipo de filme que quer tanto apelar a um público muito tenro e inocente como a um público mais adulto e certamente mais perspicaz. Nesta sua audácia e missão quase impossível, o filme consegue passar entre as pingas da chuva, não se comprometendo, mas ao mesmo tempo não consegue arrecadar nenhum seguidor de nenhuma destas bancadas.

Continuando numa lógica disruptiva a nível de temáticas e debates, encontramo-nos agora confrontados com um documentário que apela imediatamente à discussão, através de uma mescla de situações e testemunhos, assim como de épocas e pontos espaciais à volta de um Mediterrâneo plural, com Fires and Fascism do realizador Pete Knapp, que pode pecar em diversas linhas (assemelhando-se muito mais a uma reportagem do que propriamente a uma obra cinematográfica) mas que consegue, sem qualquer tipo de dúvida (como se testemunhou na conversa após o sumiço dos créditos) gerar discussões e confrontos de ideias, também elas muito plurais, o que mostra a sua força nesse plano.

Com tudo isto fica mais do que demonstrado, pelo menos eu assim o espero, que um Festival como o CineEco não vem somente para agradar ou roubar risos e aplausos da sua plateia, mas para abalar e trazer para o dia-a-dia da sua programação diversas ideias e conversas que podem, e devem, criar pontes e novos pontos de vista, assim como educar e trazer um pouco deste nosso mundo louco para Seia. Deste planeta Terra para Seia e de Seia para o Mundo. From Seia with Love.

O CineEco continua o seu debate em Seia até ao próximo dia 17 de outubro, com entrada livre, e eu só posso recomendar uma passagem por lá a todos os nossos leitores. Vejam o vídeo que mostra um pouco do que foram estes dois dias:

Texto escrito por André Marques.

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