Há qualquer coisa de profundamente cruel na ideia de ter um filho e descobrir que o amor não é suficiente para o reconhecer. Em Nightborn, Hanna Bergholm regressa aos temas da família, da maternidade e da monstruosidade para construir um conto de folk horror. Saga e Jon chegam à floresta finlandesa com a promessa quase ingénua de uma família perfeita. A casa, isolada entre árvores e memórias, deveria ser o princípio de uma vida nova, mas rapidamente se transforma no lugar onde essa fantasia começa a apodrecer.
Nightborn é muito mais interessante quando deixa de perguntar se há realmente um monstro e começa a perguntar o que significa amar um. Se há uma interpretação que sustenta o filme do princípio ao fim, é a de Seidi Haarla. A actriz entrega uma performance extraordinária, simultaneamente física e emocional, em que o corpo parece estar sempre prestes a desfazer-se. Há exaustão, medo, repulsa, culpa, ternura e uma espécie de desespero maternal que nunca se reduz a uma única emoção. O instinto maternal pode ser simultaneamente uma forma de amor e uma forma de violência. A própria recepção ao filme tem destacado a força particularmente crua da sua interpretação.
Atrevo-me, até, a encontrar uma proximidade curiosa entre Nightborn e Nightbitch (2024, Marielle Heller). Os dois filmes partem da maternidade como experiência de metamorfose – da sensação de que o nascimento de uma criança implica também o nascimento de uma versão desconhecida da própria mãe. Porém, Nightbitch pende mais para o lado do absurdo, munindo-se da sátira e da alegoria, já Nightborn é bem mais cru. Não existe a mesma distância irónica e Bergholm leva o corpo materno a sério – o cansaço, os fluidos, a carne, a amamentação, a privação de sono, a repulsa e, sobretudo, a possibilidade aterradora de não se saber se aquilo que sente é instinto ou paranoia. E talvez seja por isso que o filme é tão desconfortável…
A maternidade é apresentada como uma fronteira permanentemente instável entre o terno e o perturbador. O bebé pode ser simultaneamente uma coisa adorável (raro mas aos olhos da mãe, vá) e uma presença grotesca. O gesto de pegar nele contem carinho e medo e o cuidado pode tornar-se repulsa.
A floresta acrescenta outra camada a essa ambiguidade. O folk horror não aparece apenas como decoração mitológica, mas como uma espécie de força ancestral que parece observar aquela família e penetrar lentamente nas suas rotinas. O espaço doméstico é infetado pela criança: há qualquer coisa de orgânico na casa e na floresta, como se pertencessem a uma mesma matéria (daí a árvore a crescer-lhes no quarto do bebé). A natureza é ameaçadora e também sedutora, o que a torna ainda mais inquietante.
O filme vai criando fronteiras que nunca permite que permaneçam intactas (entre mãe e filho, entre humano e animal…) É particularmente eficaz quando nos obriga a olhar para aquilo de que normalmente queremos desviar o olhar. Há qualquer coisa de profundamente desconcertante na forma como Saga vai sendo absorvida pela própria maternidade, como se amar aquela criança implicasse também aproximar-se daquilo que nela mais a assusta.
Resta perguntar: o que é que nasce dentro de nós quando amamos aquilo que nos assusta? É nessa pergunta, suspensa entre a ternura e o terror, que Nightborn encontra a sua imagem mais poderosa – a de uma mãe a descobrir que talvez o amor seja, afinal, uma forma inexplicável de transformação.
Texto escrito por Manuel Seatra.

