Still do filme 'La La Land'

La La Land, A Epifania de uma Paixão

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No outro dia, veio-me à cabeça a palavra “epifemia” (não existente), privada de qualquer significado, apenas me soou bem. Após interrogar a minha mãe, cheguei à conclusão que se trata de epifania, e o seu significado permitiu-me expressar melhor do que nunca uma ideia que já tenho na cabeça faz algum tempo. Portanto, no caso de se estarem a questionar, “Então este texto surge de uma palavra?”, ou melhor, da minha falta alarmante de vocabulário, honestamente, sim, surge. La La Land é uma das minhas respostas recorrentes quando questionado sobre o meu filme favorito. Eu sei, eu sei, resposta fácil, básica e clichê. Contudo, o meu fascínio com este filme, que só assisti uma vez (e não tenciono repetir), não se deve nem ao aspeto musical, que tentou-me a desligar o filme, nem à história de amor, que é, de facto, emocional e devastadora. Não, a minha obsessão vem de uma simples frase da personagem de Emma Stone.

Gostava de começar por expor as qualidades óbvias e inequívocas desta obra de Damien Chazelle. À semelhança do filme antecessor do realizador (Whiplash), a cinematografia, assim como o trabalho de câmara, continuam impressionantes. De certeza que já viram nos reels, shorts ou tik toks o behind the scenes da cena do bar, em que a câmara, num único take, altera constantemente, a uma velocidade notável, entre Emma Stone e Ryan Gosling. Confesso que posso ter sido duro com a música na introdução, na medida em que o filme inclui várias músicas de qualidade, “City of Stars”, “Start a Fire” e o próprio instrumental. A minha objeção é mais dirigida aos momentos musicais, coreografados pela multidão, excessivamente longos, ou seja, à componente mais clássica de musical. Um bom exemplo é a sequência musical inicial. Foi por um triz que não desisti nos primeiros 10 minutos. Isto trata-se de uma preferência meramente pessoal, nada diz sobre a qualidade dos mesmos. Não obstante, o trunfo de La La Land para o público geral (reparem na minha auto proclamada superioridade ao diferenciar-me do “resto”) é a história de amor entre Mia (Emma Stone) e Seb (Ryan Gosling). Estaria a mentir se negasse o seu impacto emocional. A cena em que Seb, após tantos anos, vê Mia, agora casada e com um filho, no bar que o inspirou a abrir… Um simples olhar, seguido de uma montagem linda mas devastadora, é a definição da famosa expressão “Enough to make a grown man cry”.

Posto isto, posso finalmente ir ao núcleo deste texto, a minha epifania. Esta dá-se na cena em que Seb quer desistir da ideia de abrir um clube de jazz (a sua paixão), pois, segundo ele, já ninguém liga a jazz. É aí que Mia diz a seguinte frase: “People love what other people are passionate about”. Devo dizer que nunca ouvi algo tão relacionável num filme. É como se, de repente, tudo fizesse sentido. Quando temos uma ideia ou iniciativa que realmente gostamos, não nos devemos reger pelo interesse que os outros possam ter, mas sim pela nossa necessidade de partilhar e mostrar o quanto somos apaixonados ou interessados por algo, pois o nosso sentimento é tão forte que merece, ou melhor, tem de ser exposto aos outros. A minha epifania é exatamente essa. Sejam vídeos de YouTube risíveis, ou pequenos comentários em inglês, a partilha das minhas cenas favoritas, ou, como agora, a escrita da minha opinião sobre um filme, tudo isto surge da minha necessidade de partilhar o que gosto, na esperança de que alguém, interessado em cinema ou não, se deixe contagiar por esta paixão que tenho em discutir cinema. Não pelo cinema, mas pelo gosto com que o faço. Funcionou com Seb, quem sabe, pode funcionar connosco.

Assim, em última instância, e agora na  minha versão mais performativa, fico espantado quando um dos maiores nomes de Hollywood nos dias de hoje, Timothée Chalamet, basicamente revela que é movido pela fama e audiências ao invés da paixão que tem pela obra, o que tem sido alvo de crítica globalmente. Realmente, imagino Timothée, numa das suas mansões de três mil metros quadrados, devastado e inconsolável, fruto da nossa reprovação. Voltando ao essencial, La La Land é um filme de virtudes inegáveis que gera debates e dilemas que nem abordei, como a incompatibilidade trágica do sonho pessoal com o sonho amoroso. Todavia, para mim, será sempre a epifania da minha paixão.

Texto escrito por Francisco Empis.

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