Crítica: Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma / Cinco estrelas por Jasmim Bettencourt

Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma – O amor que estilhaça o cinema

5 estrelas Críticas Queer Lisboa

O nosso mundo cada vez é um mundo em que a separação entre a vida real e a vida virtual é mais ambígua. Cada vez vivemos mais intensamente como consumidores de histórias e imagens. Cada vez mais isso é um elemento essencial da nossa identidade e do nosso crescimento. No seu cinema, Jane Schoenbrun é consciente disso nela e em todos nós e reflete exatamente essa psicologia alienada, perdida em labirintos de narrativasque se reproduzem infinitamente, eventualmente perdendo o propósito do seu original. Disfarçado de homenagem ao género slasher, Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma é um artefacto que supera a sua categorização, questionando-a. É um filme que coloca em causa a sua própria natureza como objeto fílmico, que questiona a sua sátira, o seu olhar e os seus temas de identidade e sexualidade. É um filme que questiona a própria categoria de “meta-comentário”, estilhaçando-se numa viagem audiovisual da qual é impossível não chegar ao fim transformado.

No seu ensaio Slouching Towards Bethlehem, Joan Didion fala da geração “boomer” como uma geração alienada do significado das coisas, produto de uma hemorragia social, que perdeu o fio de como gerações anteriores “faziam as coisas” e apenas reproduz as questões em voga no imediato de forma superficial. De uma certa forma, o cinema de Schoebrun reflete esta aprofundada alienação dentro das gerações “millenial” e “gen Z”. Neste é traduzida a sua sensação de desajuste num mundo infinitamente complexo, em que ninguém parece ter-se dado ao trabalho de ensinar como o navegar, encontrando o seu ópio nos objetos de media, sejam eles jogos online ou filmes e séries. O que encontramos são filmes que funcionam como salas de espelhos, em que produtos de media fictícios refletem obsessões dentro de personagens, e estas refletem obsessões dentro de nós, fazendo-nos refletir sobre a nossa própria relação com media e a forma como esta nos formou.

Em Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma a obsessão central é a questão da sexualidade. A relação da sociedade humana com este tema nunca foi tranquilo, mas num mundo pós-Me Too (embora no meio cultural português parecer que esse movimento ainda não tenha chegado) as questões da auto-determinação sexual e do consentimento parecem ainda não ter sido resolvidas e apenas remendados por noções de puritanismo sexual, que falham na resolução de dinâmicas de poder, criando uma relação neurótica com a forma como vivemos a nossa sexualidade. O slasher é o género de terror perfeito para lidar com isto pela sua natureza que liga intimamente a sexualidade e a violência. Na sua época de ouro refletiu as neuroses sobre sexualidade da classe média da América do Reagan. Da sua própria forma, Adolescência, Sexo e Morte no Campo Miasma transporta esse efeito para as neuroses sexuais “millennial” e “gen Z”, incorporando-as na sua estrutura, oscilando entre um desconforto puritano e uma libertação orgásmica que é procurada e temida simultaneamente, pois alcança-la significaria um maior questionamento dos alicerces da sociedade do que estamos preparados a fazer – uma pequena morte do mundo hetero-patriarcal capitalista que tanto oprime como vicia.

No fim, Schoenbrun acompanha-nos por uma viagem de traumas e estruturas sociais que nos moldam. Ao longo desta viagem na qual o espectador é levado, uma metamorfose constante vai acontecendo, fugindo a qualquer preconceito. Em nenhum momento Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma apresenta-se como algo claro – seja como filme meta, como filme-homenagem, como filme sátira, como outra etiqueta que queiramos arranjar. É uma nebulosa fílmica, um verdadeiro miasma, que estilhaça normas e géneros, insatisfeito com uma realidade desrealizada, que é simultaneamente sintoma dessa própria realidade. É um filme que pulsa com uma vontade e obsessão e que não encontra uma resolução, mas que nos afeta e inquieta de uma forma profunda e assustadora. É um objeto possuído por um amor que transborda o ecrã e que se estilhaça a si próprio, fazendo o espectador perder-se nas suas diversas possibilidades de narrativas e não-narrativas. É um ciclo vicioso de questionamentos que, talvez através de meios místicos, foi transformado numa obra-prima da sétima arte que estilhaça a própria noção de cinema.

Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *