Estamos a poucos dias da cerimónia dos Óscares e, na semana passada, aproveitei para revisitar Anora, de Sean Baker, filme que, para nosso azar, ganhou a estatueta de melhor filme no ano passado.
Os primeiros 45 minutos foram um verdadeiro teste à paciência, uma experiência que oscilava entre a extensão interminável do primeiro acto de Os Donos da Noite, de James Gray, filme que ironicamente paira na memória de poucos na filmografia de Joaquin Phoenix e Robert Duvall, e a fragmentação caótica de Rainhas Secretas da Internet, reportagem conduzida por Roberto Cabrini no já extinto Conexão Repórter, do SBT.
A diferença é que, em vez de uma abordagem documental sobre o submundo de jovens que monetizam a própria imagem na internet, Baker atira o espectador para uma realidade crua e sem filtros, onde o caos da noite norte-americana se traduz em sexo, nudez, cigarros electrónicos, dinheiro fácil e um desfile incessante de strippers, seguranças e mafiosos russos. Tudo é excessivo, ruidoso e deliberadamente cansativo, como se o realizador quisesse testar os limites da tolerância do público antes de permitir qualquer forma de empatia.
Esse cansaço parece calculado. Baker insiste em planos longos, diálogos repetitivos e situações que se prolongam para além do necessário. Há uma intenção clara de reproduzir a lógica da própria noite que retrata, circular, exaustiva e vazia de propósito, onde o prazer se confunde com sobrevivência e o tempo parece suspenso num eterno agora. O problema é que, durante essa primeira metade, o filme flerta perigosamente com a autossabotagem.
Os excessos são tantos que, por momentos, Anora soa como uma versão despida de pudor de Uma Linda Mulher, de Garry Marshall, mas sem o verniz do conto de fadas hollywoodiano e sem qualquer promessa de redenção. Aqui não existe fantasia romântica nem mobilidade social garantida pelo acaso ou pelo amor. O que há é transacção, exploração mútua e uma brutal honestidade emocional que recusa qualquer conforto narrativo.
Em vez do executivo charmoso e milionário, surge um jovem russo inconsequente e infantilizado, que mal fala inglês e circula pelos clubes de striptease de Nova Iorque como se estivesse num parque de diversões privado. Um personagem que encarna o pior tipo de privilégio, aquele que não vem acompanhado de consciência, responsabilidade ou sequer inteligência emocional. O seu passatempo favorito é brincar com a vida das jovens strippers, tratando-as como extensões descartáveis do seu próprio tédio.
Tudo isso embalado por All The Things She Said, do duo russo t.A.T.u., uma escolha musical que funciona quase como comentário irónico. A canção, marcada por uma falsa provocação pop e por uma sensualidade fabricada, espelha com precisão o universo que Baker constrói, um espaço onde tudo parece transgressor, mas nada é verdadeiramente libertador.
É apenas quando o filme começa a deslocar o foco da protagonista para os secundários que Anora revela a sua densidade dramática. Karren Karagulian, no papel do explosivo Toros, insufla uma energia quase cartoonizada, funcionando simultaneamente como alívio cómico e como condensado de uma masculinidade agressiva e performática. Vache Tovmasyan, como Garnick, acrescenta uma tonalidade de patetismo trágico: um homem permanentemente à beira do colapso, enredado num sistema que há muito deixou de controlar, preso entre a impotência e o absurdo da sua própria presença.
Mas é Yura Borisov, na pele de Igor, quem verdadeiramente ancora o filme. A sua presença silenciosa estabelece um contraste rigoroso com o histerismo que permeia quase todas as outras personagens. Igor é o observador, o corpo deslocado, alguém que parece existir à margem daquela engrenagem de abuso e poder. Borisov esculpe o personagem com uma economia rara: poucos diálogos, inúmeros silêncios, e um corpo que hesita antes de se lançar na acção. A sua dificuldade com o inglês não se limita a uma barreira linguística; transforma-se numa metáfora pungente de um homem incapaz de nomear o que verdadeiramente sente.
Há uma melancolia dura no seu olhar, uma mistura de contenção, vergonha e resignação. A violência que o atravessa nunca se glorifica; é sempre um recurso tardio, quase involuntário. Borisov ofereceu uma das performances mais humanas da temporada 2024/2025, justamente por recusar todo e qualquer glamour e expor o personagem em toda a sua crueza e vulnerabilidade.
Já Mikey Madison, no papel-título, permanece como o elemento mais controverso do filme. A sua actuação é funcional, mas irregular. Falta-lhe, durante boa parte da narrativa, uma progressão emocional clara. A personagem parece muitas vezes prisioneira de uma tipologia já conhecida, sem que Madison consiga, de imediato, rasgar esse molde.
Madison oscila entre a apatia defensiva e a caricatura explosiva, como se ainda procurasse o núcleo emocional da personagem. Essa instabilidade é reforçada por um curioso caldeirão de referências. Em certos momentos, Anora parece saída de um filme B de acção dos anos 90 ou 2000, desses protagonizados por Steven Seagal, onde a stripper funciona apenas como elemento decorativo ou fetiche narrativo. Em outros, o humor involuntário, o gestual exagerado e a autoconfiança performática evocam figuras mediáticas como Andressa Urach ou mesmo Inês Brasil, numa mistura que oscila entre o grotesco e o desnecessário.
No entanto, à medida que o filme se aproxima do seu desfecho, algo se reconfigura. Baker abandona o ruído e desacelera a mise-en-scène, concedendo ao silêncio a palavra que o excesso de imagens lhe havia usurpado. É nesse instante que Madison finalmente encontra o seu tom, uma síntese de contensão e força contida. O final é devastador, não por se render ao choque fácil, mas por expor, de forma seca e quase cruel, o peso emocional acumulado de tudo aquilo que nos foi mostrado.
Se, ao longo de grande parte do filme, a protagonista parecia carecer de densidade, o encerramento da sua trajectória irrompe como um soco tardio, capaz de ressignificar, retroactivamente, toda a experiência. O que antes se apresentava disperso adquire contorno, e o vazio converte-se numa ferida aberta, pulsante e impossível de ignorar.
Anora é um filme de irregularidade profunda, mas também de audácia inegável. Exaustivo na primeira metade e recompensador na segunda, recusa os atalhos do julgamento moral e opta por imergir nas contradições da existência. Não se trata de um retrato edificante, nem pretende sê-lo. É uma obra sobre corpos em trânsito, afectos inacabados e uma noite que se prolonga teimosamente, até que, de forma inexorável, cobra o seu preço.
Classificação: 2 em 5 estrelas. Texto escrito por Vanderlei Tenório.
